Relatório (Estágio Orientado) II

Relatório de Estágio Orientado

Elaborado por:

Marcondes Lucena de Farias

 

 

Introdução: 

            O texto a seguir trata-se de um relatório de estágio, que foi efetuado no Colégio de Aplicação Emmanuel Leontsinis (CAEL), em Campo Grande, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. O estágio teve duração média de 2 meses, que se estenderam de maio a junho de 2010. As aulas monitoradas foram de Sociologia, em turmas de 1º a 3º anos do ensino médio. 

 Relatório 

 No nosso primeiro relatório de estágio havíamos comentado que as questões burocráticas envolvidas no processo de entrada e conclusão do mesmo talvez fossem simplificadas de acordo com a nossa melhor experiência nessa atividade. Isso, de certa forma, se deu! Visto que já conhecíamos o regulamento, pudemos nos preocupar bem mais com as observações objetivas em sala de aula e na própria escola como um todo do que com essas questões técnicas, administrativas. 

Desejamos, antes de tudo, demonstrar a nossa empolgação diante da novidade em ter a Sociologia nos três anos do ensino médio. A disciplina tem sido recebida, a meu ver, com bons olhos pela maioria dos jovens estudantes. De acordo como esta disciplina é dada, o ambiente que ela pode proporcionar aos jovens é exatamente aquilo que naturalmente eles desejam — um lugar para expor ideias, opiniões; um lugar seguro para que eles possam dizer, se desejarem, o que acham do mundo, da cultura, da religião, das leis, etc. A Sociologia e a Filosofia representam, de fato, tudo quanto o vigor e impaciência juvenis tanto procuram encontrar mas muitas vezes não acham: respostas reais. Enquanto muitas ciências, em suas respectivas áreas de atuação e importância, se direcionam em demasiado para questões um tanto abstratas para que os jovens possam captar a sua aplicabilidade no mundo real, em suas vidas — a Sociologia mais do que qualquer outra (a meu ver, claro) tem todo esse potencial persuasivo nos jovens: ela é viva, está no dia-a-dia! 

Percebe-se muito nos jovens estudantes o seu interesse, curiosidade mesmo, em querer saber, ou tentar investigar o porquê das coisas. Vivendo numa fase da vida onde todas as coisas parecem sem sentido inerente, eles realmente desejam obter respostas duradouras. A Sociologia pode ter um papel nessa curiosidade. 

É claro que não estamos proclamando um “papel messiânico” à Sociologia na educação. O que estamos afirmando é que, na verdade, esta disciplina possui atributos próprios de investigação da realidade que podem ser úteis aos jovens em seu interesse pessoal pela busca de respostas. Por que não incentivar ou fomentar nos estudantes esse interesse pela investigação das respostas por meio da ciência? É provável que os resultados desse incentivo não sejam outros a não ser a formação de sujeitos críticos, não satisfeitos com respostas prontas e dogmáticas, mas cada vez mais pesquisadores de respostas. 

As aulas monitoradas demonstram bem estas observações. Notou-se que os adolescentes observados possuíam determinado “respeito” pela Sociologia, Filosofia e Psicologia em poder responder às questões colocadas por eles. Ou seja, eles acreditam, até certo grau, na eficiência dessas áreas do conhecimento humano na obtenção de respostas. Por exemplo, numa palestra sobre Sexualidade Humana realizada durante o período de estágio, os alunos demonstraram acatar a mensagem do palestrante, um psicólogo, embora o assunto em pauta tendesse para o conservadorismo em comparação ao comportamento usual. Embora eles realmente pratiquem a sexualidade comum às gerações mais recentes, parecem “respeitar” as indicações (pelo menos teoricamente) dadas pela ideia de comportamento sexual seguro das áreas científicas. 

Essas observações sobre a sexualidade devem ser assunto em pauta a todos os educadores. Não podemos distanciar, mesmo que queiramos, a educação formal do comportamento sexual, informal dos adolescentes.  Às vezes (ou quase todas as vezes), a forma como os jovens apreendem ou não determinadas informações da aula está estritamente relacionada a fatores que eles trazem de fora. Não existe qualquer possibilidade dos adolescentes (ou mesmo adultos) penetrarem no conhecimento sociológico se eles não verem nisso um sentido que os interesse em aplicar em suas vidas. Exemplificando: alguns jovens, durante o período deste estágio, me procuraram no intuito de saber se a Sociologia possui conhecimentos específicos sobre como um adolescente pode conquistar uma adolescente. Embora isso possa parecer um assunto simplório, imagine o que isso não deve representar para um jovem de uns 14 anos! 

Ora, estas observações não são nada mais que um incentivo — uma reflexão axiológica! Devemos sempre nos perguntar que princípios devem nortear a educação: a frieza e a distância ou o calor e a aproximação? Existe mesmo a possibilidade de aprendizados impessoais, mecânicos? Como separar um determinado assunto dado em aula de assuntos que provavelmente estão perturbando os jovens estudantes? 

Perturbações — esta palavra é bem ampla. Uma perturbação pode gerar várias outras perturbações. Um jovem que não possui boa atenção e demonstrações de afeto dos pais provavelmente vive num ambiente perturbado (no sentido de anomia de E. Durkheim); este ambiente o conduzirá a prováveis perturbações emocionais; estas emoções perturbadas, por sua vez, o levará a comportamentos perturbados, sem sentido definido. Por que estamos falando sobre isto? Simplesmente como introdução para a análise de acontecimentos que podem vir à tona em sala de aula. Precisamos, evidentemente, esclarecer que acontecimentos perturbadores podem ser simples fatos isolados, aleatórios e inerentes à adolescência. Mas, se estes se repetirem, e forem feitas investigações ou análises dos indivíduos envolvidos, observar-se-ão sérios problemas pessoais, de ordem emocional, nesses sujeitos. 

Podemos destacar alguns casos que nos chamou a atenção, que são relacionados ao dito no parágrafo anterior. Falaremos apenas de um caso, visto que os demais podem ser considerados constrangedores para os sujeitos envolvidos se narrados, e por isso vão ficar neste relatório como se fossem os assuntos considerados confidenciais, não relatados. O fato que narramos diz respeito a alguns jovens que, de forma sutil, furtaram o pilot (material de trabalho da professora usado para escrever no quadro) e depois utilizaram o mesmo para fazer pichações no banheiro da escola. Esses jovens foram pegos pela inspetoria da escola e depois punidos. O mais importante e triste de toda esta história, no entanto, é o fato de a professora ter passado por essa situação constrangedora de trabalho e ter sido, em certo grau, quebrado o ambiente de confiança que deve ser mantido entre educador e educando.  Mas visto que a professora possui bastante experiência nessa área humana (também leciona Psicologia e Filosofia), conseguiu se sair muito bem da situação em questão. Depois, por meios informais, ficamos sabendo quem furtou o pilot da professora. 

As nossas observações em ambiente escolar não se direcionaram meramente para os jovens educandos e seu comportamento natural. Também procuramos analisar como agem os educadores, no desempenho de seu papel e também fora do mesmo. A nossa professora supervisora de estágio utilizou em diversas turmas um interessante artigo publicado recentemente na revista Veja [1], em que mostra a discórdia existente entre os moradores dos bairros da Zona Sul do Rio de Janeiro (tradicionais) e os da Barra da Tijuca (emergentes). Os primeiros chamam os segundos de “barraíbas” (um trocadilho entre barra e paraíba). O interessante aqui para as nossas reflexões é que, ao mostrar a matéria aos alunos, educandos, eles receberam o artigo com uma certa indignação, visto acharem o termo demonstrado no artigo um preconceito; mas ao mostrar o artigo a uma outra professora, durante o intervalo entre as aulas, essa outra professora simplesmente riu e disse concordar com os moradores da Zona Sul, visto que na Barra realmente só existiam pessoas emergentes (novos ricos)! — Embora eu, no momento, não tenha dito nada a respeito (acho que ela nem sabia que eu era sociólogo), procuro refletir neste pequeno espaço sobre esta questão. Será mesmo que os educadores estão aptos a desenvolver nos jovens adolescentes o pensamento crítico, imprescindível para a cidadania, se muitos deles próprios não possuem este pensamento crítico? Como eles podem refletir sobre a alienação com outros se se encontram num estado próprio de alienação? Como ajudar a desenvolver a capacidade intelectual nos jovens, pela curiosidade infinita, se a própria pessoa não possui a sua capacidade intelectual desenvolvida? Não teria Sócrates dito, já na Antiguidade, a famosa exortação: “Conhece-te a ti mesmo”? 

Finalizando estas considerações sobre a nossa experiência na área prática da educação, no ambiente escolar propriamente dito, desejamos como que repetir o que havíamos dito no início: a respeito do ensino de Sociologia em todo o ensino médio. Afirmo que tenho boas expectativas para a educação com a contribuição sociológica, desde que seja feita (esta contribuição) por professores bem preparados e conscienciosos. Devemos conceber o sentido da educação — sem esta concepção perde-se a ação completamente. O sentido da educação não diz respeito simplesmente à passagem de conhecimentos. Diz respeito à passagem de vivências. Esta passagem de vivências acontece desde o nascimento do novo ser humano; a educação escolar é apenas um dos vários elementos que constituem esse processo particularmente humano. Visto isto ser assim, é bom que vejamos a educação escolar como sendo um incentivo a mais para que aquela captação ou absorção de vivências que os jovens trazem desde muitos lugares, continuem de uma forma infinita, direcionadas sempre para o seu progresso pessoal relacionado ao progresso do meio em que vive — e da humanidade! 

Marcondes Lucena de Farias 

Bibliografia: 

[1] Revista Veja. Edição nº 1846. Disponível na internet na data 22/06/2010, às 20:00 h em: http://vejabrasil.abril.com.br/rio-de-janeiro/editorial/m1846/tao-bela-e-tao-esnobada

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