A Evolução Urbana de uma área específica (Geografia)

Conforme comentado no livro O Espaço Urbano, de Roberto Lobato Corrêa (Ed. Ática), o espaço urbano trata-se de um lugar repleto de lutas sociais e distingue-se pelas características de ser ao mesmo tempo fragmentado e articulado entre si, reflexo da sociedade que o ocupa, e um condicionante social para este mesmo espaço. Isso precisa ser observado empiricamente na realidade dos bairros da cidade.

Podemos escolher para esta análise o bairro de Jardim Maravilha na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O bairro pode ser classificado de “pequeno porte”, visto que é considerado por muitos como um “sub-bairro” do bairro de Campo Grande. Embora apresente certo nível de comercialização local, não se nota características como verticalização, articulação estratégica com o centro urbano, etc. Isso pode ser explicado pela falta de especulação imobiliária que ainda se apresenta em estágio inicial.

Nós já podemos encontrar demonstrações da especulação imobiliária por meio de outdoors vez por outra colocados em cercanias do bairro, ora informando sobre a criação de supermercados ora sobre a criação de shoppings. Não se encontram especificamente dentro do bairro condomínios imobiliários, embora esse agente urbano esteja presente por meio de compras e vendas de imóveis na região.

A fragmentação e a articulação urbanas podem ser facilmente observadas ao notarmos a peculiar subdivisão do bairro. Quase que de uma forma oficial, os moradores entendem que o Jardim Maravilha possui duas áreas, o centro do bairro e “as casinhas”. Essa divisão ideológica pode ser importante para todo o estudo acerca da totalidade do bairro. Por exemplo, na questão da fragmentação urbana, esta se faz presente por meio da própria subdivisão do bairro. A questão da articulação se faz presente pelo fato de quase toda a atenção em infra-estrutura, comércio e transportes ser direcionada à área central do bairro. O ônibus que passa pelo Jardim Maravilha, por exemplo, que vai de Bangu à Barra da Tijuca, tem como rota apenas o centro do bairro — os moradores das casinhas precisam andar certa distância para ter acesso ao transporte público. Na questão de infra-estrutura, a fragmentação é berrante. Enquanto o centro do bairro é inteiramente asfaltado e com todo o tratamento de esgoto, “as casinhas” não possuem água encanada legalmente; nem tratamento de esgoto, tendo, inclusive, valões a céu aberto; e quanto a áreas asfaltadas, nada a apresentar, a não ser o caos causado pela lama em tempos de chuvas.

Outra característica urbana que pode ser facilmente observada no bairro de Jardim Maravilha tem a ver com a questão do reflexo social. Evidentemente, nesse bairro não se encontram moradores com alto poder aquisitivo. Mesmo assim, as características de reflexos sociais na paisagem do bairro são notadas. Por exemplo, a paisagem do centro do bairro, com toda a infra-estrutura, é completamente distinta da paisagem encontrada na área das “casinhas”. Um exemplo disso pode ser a falta de acabamento nas casas e a própria qualidade das moradias. Ora, enquanto a paisagem do espaço urbano encontrado no centro do bairro reflete as possibilidades das pessoas que vivem naquela área, o mesmo ocorre, embora de forma inversa, com a paisagem observada nas “casinhas”. No entanto, o reflexo social acaba por se tornar um condicionante social. Esse processo de transformação de uma característica urbana em outra característica relacionada pode ser observado em todas as cidades do mundo em que se faz esta análise. Um exemplo disso é o que acontece com a reprodução do meio de vida daquelas áreas específicas. As pessoas que vivem no centro do bairro recebem uma carga ideológica social no sentido de tanto ansiarem continuar a viver naquele “patamar existencial” quanto a poderem melhorar, se possível. Já os moradores das “casinhas” são colocados, mesmo que de forma inconsciente, num patamar ideológico inferior. Bem, o fator “condicionante social” ocorre pelo fato da adesão social das pessoas que residem naqueles locais a tais ideologias predispostas. Quando perguntamos a alguém que mora na parte mais humilde e com menos infra-estrutura do Jardim Maravilha, ele diz sem nenhuma restrição: “Moro nas casinhas.” Queira notar o grau de aderência. Já alguns moradores da parte central do bairro possuem uma visão de inferiorização com respeito à área das “casinhas”. Nem todos ouvem bem a frase “moro nas casinhas”. Isso gera certa animosidade entre os moradores do bairro, principalmente entre os jovens, mesmo que de forma inconsciente.

A conclusão dessa análise é que todas as características do espaço urbano podem ser realmente verificadas em quaisquer áreas do mundo, não importando o recorte de escala ou de tempo. Isso nos possibilita muita matéria de estudo e de análise, principalmente pelo fato de possíveis melhoramentos dessas áreas só serem possíveis por meio do conhecimento das características urbanas específicas e a introdução de políticas públicas eficazes e sem interesses capitalistas, como ocorre na maioria dos casos.

Bairro de Jardim Maravilha

Bairro de Jardim Maravilha

Centro do bairro

Centro do bairro

As "casinhas"

As "casinhas"

Asfalto sim... asfalto não...

Asfalto sim... asfalto não...

Valão a céu aberto

Valão a céu aberto

 

 

 

Correção: O sub-bairro de Jardim Maravilha pertence ao bairro de Guaratiba, e não ao de Campo Grande, como foi comentado no trabalho.

 

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13 respostas para A Evolução Urbana de uma área específica (Geografia)

  1. Olá, tudo bem?

    Sou morador do Bairro jardim maravilha ( Guaratiba) há 28 anos e gostaria de fazer um cometntário.

    Obs.: Sou Formado em “Administração de Empresas”

    Segue abaixo seu próprio texto!

    …” A questão da articulação se faz presente pelo fato de quase toda a atenção em infra-estrutura, comércio e transportes ser direcionada à área central do bairro. O ônibus que passa pelo Jardim Maravilha, por exemplo, que vai de Bangu à Barra da Tijuca, tem como rota apenas o centro do bairro — os moradores das casinhas precisam andar certa distância para ter acesso ao transporte público. Na questão de infra-estrutura, a fragmentação é berrante. Enquanto o centro do bairro é inteiramente asfaltado e com todo o tratamento de esgoto, “as casinhas” não possuem água encanada legalmente; nem tratamento de esgoto, tendo, inclusive, valões a céu aberto; e quanto a áreas asfaltadas, nada a apresentar, a não ser o caos causado pela lama em tempos de chuvas.”

    1. Você já viu em algum lugar do mundo o governo Federal, municipal e/ou estadual investir em algum lugar que não vai gerar retorno?

    2. Você sabia que a parte do bairro que você disse “casinhas” são isentos de qualquer tipo de impostos?

    3. Você sabia que 90% das “casinhas” não pagam água e nem luz?

    4. Você sabia que a prefeitura, melhor à SMH secretaria municipal de habitação já informou que aquela área é abaixo do nível do mar, e por isso, não tem solução?

    5. Você sabia que as rotas dos ônibus são feitas pela prefeitura?

    6. Com base na sua própria conclusão, você como prefeito investiria nesse bairro?

    7. Ah, sim! Jardim Maravilha é o maior loteamento da américa latina, tem noção?

    8. Na sua conclusão você diz: “… Isso nos possibilita muita matéria de estudo e de análise…”

    9. Faça sua analise agora, sabendo que 90% roubam energia eletrica – “o chamado gato” – roubam água – não pagam impostos – e você ainda acha que:

    “Isso nos possibilita muita matéria de estudo e de análise, principalmente pelo fato de possíveis melhoramentos dessas áreas só serem possíveis por meio do conhecimento das características urbanas específicas e a introdução de políticas públicas eficazes e sem interesses capitalistas, como ocorre na maioria dos casos”

    10. Não sei se você ainda lembra, mas vivemos em um sistema capitalista?

    11. Espero que você se torne um PHD nessa área, de repente você pode resolver esses problemas, estudar e analisar é fácil!

    12. Mesmo se você quiser colaborar para melhorar a qualidade de vida das ” casinhas” ou de qulaquer outra área no mundo não importando o recorte de escala ou de tempo, vai ter que ter dinheiro é aí de onde sai, é melhor só ficar no estudo!

    Um abraço!

    • Conde disse:

      Resposta do Blog:

      Agradecemos por suas interessantes e instrutivas informações.

      O objetivo do artigo não se direcionava no caso das políticas públicas, conforme se nota no seu comentário. Abordamos apenas algumas observações de cunho mais descritivo do que prático. É evidente que políticas públicas envolvem, além de análises pragmáticas, muitos outros fatores, como, neste caso, investimentos.

      O nosso trabalho não possui uma linguagem de cunho reivindicatório por motivos partidários, sectários; desejamos, na verdade, demonstrar que todas as pessoas precisam ter acesso aos frutos da cidadania, independente de sua atual situação socioeconômica e que tal direito de acesso deve se sobrepor aos interesses de mercado do mundo capitalista, visto ele próprio ser um resultado de criações do próprio ser humano em sociedade.

      Pessoalmente, eu acredito que toda e qualquer área possa ser melhorada, embora não completamente solucionada. Para isso, como foi dito, é necessário “muita matéria de estudo e de análise”. E ação!

      Obrigado pelo seu comentário.

  2. michele hansen disse:

    olá tudo baum!!

    “os moradores das casinhas precisam andar certa distância para ter acesso ao transporte público. Na questão de infra-estrutura, a fragmentação é berrante. Enquanto o centro do bairro é inteiramente asfaltado e com todo o tratamento de esgoto, “as casinhas” não possuem água encanada legalmente; nem tratamento de esgoto, tendo, inclusive, valões a céu aberto; e quanto a áreas asfaltadas, nada a apresentar, a não ser o caos causado pela lama em tempos de chuvas.”
    ass:michele hansen

  3. Estudar e questionar é muito fácil, o dificil e resolver os problemas da população que necessita apenas do basico para morar, que é o saneamento basico.

    como mesmo disse um funcionário da prefeitura de Campo Grande, que so Deus sabera quando havera melhorias no bairro.

    e nosso entao prefeito, que ficou 15 dias em Campo Grande, voces viram ele passar pelo Jardim Maravilha??

  4. Grécia disse:

    A conta de água chega dizendo que estamos em débito,
    mas onde está a ÁGUA? Onde está o SANEAMENTO?
    É lama misturado com com água podre de valão junto com ratos e porcos… e assim vamos tentando viver sem pegar nenhuma doença.
    Se temos que pagar nossos impostos nos dê um saneamento básico… é o minimo que um sidadão tem direito!

  5. luciano cunha disse:

    ola! estou me formando na feuc, licenciatura plena em geografia, estou no 5º per. e sou morador de jardim maravilha. gostaria de esta fazendo minha monografia sobre o bairro. no momento estou no projeto e gostaria de ajuda, se possivel, dos srs. de dados tais como extençao do espaço, numerode habitates, urbanizaçao, transportes, educaçao entre outros e orientalççoes para fazer uma monografia muito boa. desde ja agradeço o empenho de todos, um abraço e ate breve!

  6. JARDIMMARAVILHA.COM – Notícias, Entretenimentos, Festas e Eventos e muito mais sobre o maior loteamento residencial da América Latina.

    Saiba mais em jardimmaravilha.com

  7. Melina disse:

    Boa tarde,
    Fui moradora do Jardim Maravilha, de maravilha só o nome…hoje não sou mais, porém, estou no penúltimo periodo de Arquitetura e Urbanismo e meu tablaho de conclusão fala exatamente sobre o assunto. Sei de quase todas as dificuldades da população local e acredito que tudo pode ser resolvido, basta interesse publico e digo mais, Guaratiba está crescendo e muito rápido, acho que em breve as coisas mudarão… só não sei se pra pior, estou tentando modificar a atual situação.
    Gostaria de saber se alguem sabe de algum site alem do “amo guaratiba” e “jardim maravilha” com que possa me ajudar com mais informações.
    Alguem sabe como surgiu as “Casinhas”? Escutei falar que eram de policiais da PM …depois sairam de lá..não sei a verdade e o porquê.
    Obrigada.

    • Resposta do Blog:

      Obrigado pelo comentário.

      Nós não fizemos uma pesquisa extensiva sobre o bairro Jardim Maravilha. Procuramos apenas fazer uma interligação ou aplicação dos fatores urbanos apresentados na obra citada no trabalho com a realidade vivenciada pelos moradores do bairro. A própria paisagem (no sentido geográfico) do bairro e suas variações nos possibilitaram fazer as afirmações analíticas do trabalho, além da íntima convivência direta com os próprios moradores (observação de campo). As informações sobre o comportamento ideológico, social, etc, foram verificadas pela observação direta.

      Nós não utilizamos nenhuma obra de referência para a produção do trabalho.

      Na internet não encontramos informações confiáveis sobre o bairro Jardim Maravilha no Rio de Janeiro, que é o que interessa na produção do trabalho científico.

      Talvez tais informações ainda precisem ser produzidas, ou não estão disponíveis eletronicamente no momento, embora se afirme que o bairro em questão é o maior loteamento da América Latina. Sugerimos a assessoria nos arquivos disponíveis nas bibliotecas oficiais das Universidades da região e da própria Prefeitura do Rio de Janeiro. É provável que eles possuam algum material disponível sobre o bairro.

      • Melina Silva disse:

        Obrigada Marcondes por me responder, ainda estou trabalhando no assunto,meu tcc é sobre o local e ainda estou a procura de informações, de qualquer forma, obrigada.

    • Carlos Camilo disse:

      Meu nome é Carlos Camilo, tenho 51 anos, político (pré-candidato a vereador) Nasci e fui criado no Jardim Maravilha. Quando criança, meu pai tinha criação de gado e fui crescendo vigiando estes animais em pastos exatamente ali, onde foram construidas as casinhas para o pessoal da polícia militar. Na época, era uma área que tinha uma vasta plantação nativa de eucalipto. Pouco tempo depois da construção dessas casinhas, há pelo menos uns trinta e poucos anos, houve uma grande enchente que cobriu todas as casas e os moradores tiveram que serem resgatados por lanchas do exército graças a um morador que era sargento desta arma, que, não morava exatamente na área atingida e que teve uma atitude heroica, indo ao quartel em santa cruz e que em menos de duas horas já estava de volta com várias equipes de salvamento. Logicamente que depois chegaram também os bombeiros, mas, muito depois. Pois, o Rio de Janeiro estava um caos total. Eu como militar da Marinha, não tive condições de ir trabalhar naquele dia, devido a forte tempestade que atingia o Rio de Janeiro. No entanto participei também no resgate às vítimas da catástrofe, tanto quanto vários outros voluntários. Depois disso as casinhas foram abandonadas por muito tempo, sendo posteriormente invadidas por outras pessoas. Essa é a história que conheço das casinhas do Jardim Maravilha. Bairro o qual, visito sempre aos finais de semana, que tenho familiares e amo demais, apesar de atualmente morar no centro de Campo Grande.

  8. wagner disse:

    O mais absurdo de tudo esta acontecendo agora, a prefeitura esta derrubando todas as casas daquela area inclusive derrubaram a minha deixando as familias sem ter para onde ir.o pior da situação eles chegam sem mandato nenhum e derrubam alegando ser um decreto do prefieto e que ali é apa(area de proteção ambiental) e por isso não irão indenizar ninguém,divulguem essa informação para vermos se conseguimos alguma resposta do senhor prefeito que a té o momento não se pronunciou a respeito dessa situação.

    Att,
    Wagner

  9. pieter maximo disse:

    Ali nem para apa serve só tem barro

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