NOTA DE RETRATAÇÃO

No ano de 2009 eu participei de um debate sobre a naturalidade da orientação sexual dos homossexuais com um apologista da filosofia cristã no qual usei argumentos que possuem algumas declarações que precisam ser esclarecidas e retratadas de acordo com o meu pensamento atual – ano de 2016 – ano desta RETRATAÇÃO.
Eu gostaria de me retratar a respeito de dois argumentos utilizados no debate, que podem ser considerados como ultrapassados atualmente:

1. “O pensamento de que a homossexualidade é abominável aos olhos de Deus é um pensamento que pode ser crido e sustentado por quantos possam crer nisso. O que não devemos fazer é inferir que esse pensamento (simples pensamento no mais restrito sentido da palavra) deva ser universalizado e imposto legalmente. Esse tipo de pensamento é um equivalente perfeito ao pensamento de racismo pregado por muitos grupos considerados ilegais, isto é, o pensamento ou ideologia pode até existir e ser crido, mas jamais legalizado ou universalizado, pois não possui base racional, científica”.
2. “Será que quando aqueles fanáticos fundamentalistas do Islã queimam com bombas pessoas indefesas devido às suas crenças particulares tais pessoas queimadas devem, por direito, ser classificadas como ‘incrédulas’? A crença ou a ‘verdade’ é deles e só existe nas suas mentes perturbadas. Que tem isso a ver? (…) Ora, o fanatismo terrorista deles está para as bombas assim como a ‘demonização’ das pessoas diferentes está para nós, ocidentais. Qual a diferença em se queimar uma pessoa literalmente e condenar ao ostracismo uma outra de forma psicológica? Quando se diz no início deste debate que ‘nos orgulhamos de sermos a imagem do criador’, o que é isso, a não ser dizer que os gays e lésbicas são a imagem do diabo e que estão condenados ao sofrimento eterno? (…) O terrorismo não começa no explodir das bombas. De forma alguma! Ele começa na nossa mente! Isso mesmo! Quando condenamos uma pessoa internamente, na psiquê, o nosso genocídio futuro será apenas uma questão de contexto histórico ou de oportunidade. A História está aí para nos mostrar tudo isso.”
Fonte: https://marcondeslucena.wordpress.com/2009/06/21/homossexualidade/

 

RETRATAÇÃO:
A respeito do argumento 1.
Gostaria de esclarecer que a ideologia da condenação às práticas homossexuais por Deus, que é seguida pela maioria dos religiosos, NÃO é “um equivalente perfeito ao pensamento de racismo pregado por muitos grupos considerados ilegais”. Este argumento foi usado à época, de forma equivocada, para sustentar que a pessoa possui a liberdade de acreditar até mesmo em coisas consideradas ilegais e não ser punida por isto, desde que não propague esta ideologia pessoal e nem incentive a violência a outras pessoas. No entanto, este não é o caso da crença religiosa. As pessoas acreditarem e pregarem o seu credo, conforme está estabelecido em seus escritos sagrados, não é algo ilegal e que não deva ser propagado ou falado. A Constituição de 1988 incentiva a liberdade de crença e de expressão. Portanto, se a pregação da condenação das práticas homossexuais não for feita de forma que incentive a violência e a intolerância, é inapropriado que a equiparemos ao racismo ou a outras formas de práticas ilegais.
A respeito do argumento 2.
Foi feito um paralelo entre os genocídios históricos e as ideologias que eram usadas para justificá-los. Embora eu continue sustentando que este processo sociológico seja verdadeiro, a argumentação foi inapropriada e incabível, para não dizer desnecessária. Embora a linha de raciocínio estivesse correta, a argumentação não levou em consideração, de forma mais ampla, os demais fatores histórico-culturais envolvidos na execução da violência e dos genocídios, limitando-se de forma incoerente, pelo menos de forma aparente, ao fator ideológico.

TENDO COMO BASE – 1. O exposto acima; 2. As palavras publicadas por mim na “página inicial” deste site, a saber: “Este meu site pessoal não é imparcial. Outrossim, está completamente aberto a debates e a futuras alterações.”; 3. As palavras publicadas por mim na página “Padrão do Blog”, a saber: “Este site está aberto a opiniões diversas sobre os assuntos publicados. Nenhum comentário é censurado ou excluído (exceto quando se utiliza linguagem agressiva ou em desobediência à legislação em vigor), e todos são respondidos a seu tempo, com direito a tréplicas. Este blog não defende verdades absolutas e está suscetível a modificações e retratações posteriores. (…) Qualquer pessoa pode enviar críticas, reclamações e sugestões para o responsável por este blog, inclusive solicitando retratações e correções.”; e em outros locais, com afirmações semelhantes – eu gostaria de me desculpar publicamente pelo uso dos argumentos apresentados no contexto desse debate em pauta, de 2009. Qualquer pessoa que tenha visto o debate ou que venha a ter acesso ao mesmo, numa época posterior a esta publicação, deve levar em consideração esta RETRATAÇÃO e observar as considerações feitas acima ao se deparar com os argumentos em questão.
Eu, MARCONDES LUCENA, sou a favor da liberdade de crença e da liberdade de expressão da crença, bem como a favor de qualquer tipo de liberdade que não interfira negativamente nos direitos de outras pessoas, ou que corresponda a uma ilegalidade. Sou também favorável a que cada pessoa, no exercício de sua liberdade, e individualmente, possa ter e exercer o direito e o dever de encarar as consequências desta liberdade. Sou favorável, novamente, a que as pessoas possam ter o direito da defesa e do contraditório, bem como da retratação, pois todos, numa democracia, estão sujeitos ao equívoco e às más interpretações.
A democracia é realizada ou aprimorada, na maioria das vezes, por meio de erros e acertos, tentativas e consequências. A seriedade e a justiça são mais importantes do que o nosso orgulho pessoal. Grupos ou instituições colegiados são maiores do que os seus membros que os constituem individualmente, e se exteriorizam, sobrepondo-se aos mesmos.
Gostaria de reiterar as minhas desculpas sinceras a todas as pessoas que se sentiram ofendidas ou que venham a se sentir assim, no futuro, pelos assuntos considerados aqui nesta RETRATAÇÃO e dizer que lamento pelo uso daqueles argumentos inconclusivos e inapropriados. Argumentos como esses, neste caso específico, não levam a uma evolução ou amadurecimento das questões mais amplas que estavam em consideração naquele debate, e que deveriam ser o ponto principal: TODOS os Direitos Humanos. Esta evolução ou amadurecimento, temo em dizer, ainda irá se prolongar por várias gerações, num processo lento e gradual. Mas, desde então, ele já está em andamento e é algo inevitável. É o nosso destino. É o próprio destino natural de todas as coisas.
Obrigado.

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