A Maldição no Reino da Perfeição

inicio

Houve uma época, ou um momento, antes da existência do Tempo, em que formou-se um curioso Reino estabelecido sobre os pilares da Perfeição. Não se sabe exatamente o que existiu antes daqueles Deuses que governavam o Reino, pois, visto isto tudo ter se sucedido antes do Tempo, tal conhecimento tornou-se irrelevante.

Mas não é irrelevante, para vós, mortais, que viveis no que acreditais ser uma faixa do Tempo, aquilo que narrar-vos-ei neste pequeno e precioso relato que nos restou e foi preservado para as gerações após a criação do Tempo.

Os Deuses governavam, de fato, tudo sob a mais completa perfeição. A perfeição era a ordem das coisas. Tudo existia para um propósito e cada propósito satisfazia uma necessidade daqueles viventes do Reino. Ora, cada vivente era uma emanação de um Deus. E os Deuses eram tais: o Deus do Amor, o Deus da Paixão, o Deus da Justiça, o Deus da Riqueza, o Deus do Prazer, o Deus das Águas, o Deus do Ar, o Deus da Terra, o Deus da Morte, e muitos outros.

Eles governavam de um modo que cada vivente pudesse ter, sem dúvida, uma leve e contínua consciência do equilíbrio que existia entre todas as forças. Os viventes eram únicos em sua individualidade, mas gerais na coletividade. Quantas vezes os Deuses se juntavam entre si e originavam novos viventes! Os viventes, depois de oriundos da força divinal, juntavam-se, por sua vez, entre si, e originavam mais e mais viventes.

Os viventes possuíam dúvidas e procuravam o Deus da Sabedoria. Ele respondia a perguntas inimagináveis e os viventes a tudo compreendiam, e sim, eles se satisfaziam – pois esta era a sua natureza. Não havia mistérios. Cada vivente naquele Reino sabia e aceitava que, num dado momento, assim como lhes explicara o Deus da Sabedoria, assim aconteceria, isto é, que não importava qual fosse a sua origem: eles retornariam para de onde vieram.

A individualidade de cada vivente tornava o Reino rico e harmonioso… Os filhos do Ar com as Águas encontravam-se com os filhos do Fogo com a Terra e, num grandioso fenômeno, produziam vida que brotava… E o Deus da Sabedoria e seus filhos com o Deus da Riqueza a tudo observavam, e com isto expandiam o conhecimento entre todos os viventes sobre a ordem da prosperidade entre as coisas…

E o Deus da Morte recolhia as folhas secas que fazia cair das árvores e as entregava ao Deus da Terra, e este as recebia de bom grado e, ao juntar-se à força que emanava dos filhos do Deus das Águas, produzia mais e mais vida. Tudo isto ocorria num certo momento, pois não havia Tempo.

Um jovem, filho do Deus da Sabedoria com o Deus da Liberdade, passou a observar atentamente como tudo ocorre, no seu certo momento. Não obstante, como de costume, para aqueles que deixam-se levar por um excesso no sentimento de liberdade, este jovem passou a desenvolver uma ideia desvirtuada para a ordem das coisas. Como no Reino tudo era permitido – sob a supervisão divina do Deus da Justiça, que observava a ação de todos os viventes e que, junto com seus co-Criadores, os demais Deuses, criara e executava a lei da ação inevitável dos atos – este vivente era livre, herança e bênção de seu pai, o Deus da Liberdade, e podia fazer quantas indagações desejasse…

Mas não era simplesmente um justo questionamento o real desejo que havia naquele jovem rapaz… Era realmente um desejo subjacente de implantação de uma Nova Ordem para todo o Reino.

Num certo momento, ao ver o Deus da Morte entregando um ex-vivente ao Deus da água, para decompor-se e assim dar mais vivência aos que ali viviam, o jovem indagou: “Por que vós estais fazendo isto? Não seria mais útil que ele fosse deixado aqui mesmo na maré, e que o Deus da Terra o recebesse para si?” O Deus da Morte o respondeu: “Eu conheço-te bem, meu jovem. Sei que és filho do Deus da Sabedoria e do Deus da Liberdade… Será que não devias observar as tuas origens e verdes, por ti mesmo, o modo como são feitas as coisas?” Ele retrucou: “Não me respondeste!” O Deus da Morte aproximou-se do rapaz, que sentiu a sua frieza peculiar… “Sendo filho do Deus da Sabedoria não devias estremecer-te pelo simples fato da minha aproximação. Sabes que neste Reino tudo tem o seu momento e que ainda não é o teu… Mas garanto-te que não escaparás de mim. Todos os filhos deste Reino a mim serão entregues e, aos demais Deuses, os entregarei… Mas vejo que estás desvirtuando o dom que emana naturalmente de teu pai, o Deus da Liberdade. Tolo tu és! O dom de teu pai, o Poderoso Deus da Liberdade, sem o dom do Deus da Sabedoria, torna-se libertinagem. Este vício de personalidade – junto com o vício da temeridade – foi o que me fez, sob os preceitos do Deus da Justiça, entregar ao Deus das Águas esse ex-vivente que julgaste ser mais útil ser entregue ao Deus da Terra… ”

O jovem empalideceu diante da voz para ele pavorosa do Deus da Morte – o que de fato revelou ainda mais o seu desvirtuamento, pois, vivente algum temia o Deus da Morte naquele Reino, exceto aquele que estivesse desvirtuado.

O jovem rapaz, filho do Deus da Sabedoria e do Deus da Liberdade, continuou : “O que fez vós entregardes ao Deus das Águas aquele ex-vivente ao invés de entregá-lo ao Deus da Terra? Por que vós fostes compelido a executar a justiça desta forma e não daquela outra? Por que o considerastes desvirtuado com os vícios da libertinagem e da temeridade?”

O Deus da Morte voltou a falar novamente: “Tu realmente não pareces ter herdado o dom que emana naturalmente de teu pai, o Deus da Sabedoria! Sabe tu, antes de te julgares superior àquilo que te antecedeu, que tudo que existe neste Reino segue a mais justa e perfeita ordem criada para a felicidade e bem-estar de todos os viventes. Dos Deuses emanam os dons… E a vivência é um dom de todos… Junto à vivência, os Deuses lhes concedem a consciência. Tu sabias que a consciência é uma concessão dos Deuses a vós viventes? Todas as coisas poderiam nascer, crescer, e se reproduzir por todos os momentos, sem a consciência. Ela é desnecessária… Mas os Deuses desejaram criar viventes conscientes. Só assim eles poderiam ver e apreciar, com sabedoria, justiça e liberdade, o perfeito equilíbrio das coisas. Foi dado até mesmo a vós o dom da procriação. O Deus do Prazer vos presenteou a sua emanação para a sua completa felicidade. Dize-me por que te desvirtuaste… ”

O rapaz respondeu: “Não me desvirtuei… Estou a operar em mim o dom de meus pais, a sabedoria com liberdade…”

O Deus da Morte passou a falar e a dizer: “Tu não pareces nem um pouco com aqueles que refletem o dom dos filhos dos Deuses Sabedoria e Liberdade. Tua fala te trai! Os filhos desses Deuses, quando virtuosos, nunca invertem o equilíbrio das coisas, a saber, a primeira coisa: sabedoria com liberdade. Eles são tão sábios que costumam dizer ‘liberdade com sabedoria’. Tolo é o que tu és… E tua tolice, provavelmente, te trará a mim antes do momento natural das coisas. É assim que é…”

O Deus da Sabedoria fez-se aparecer diante dos dois: “O que vos eleva a justa ira, Deus Poderoso?”

“Vós bem sabeis…”

O vivente curvou-se diante do Deus da Sabedoria e disse: “Pai, sabeis que o conhecimento é livre!”

O Deus da Sabedoria disse: “Jovem tolo! Estás desvirtuado… Vê quem te aparece: o Deus da Liberdade! Clama a ele! ”

O Poderoso Deus da Liberdade disse: “Vivente, o que dizes? Não estás satisfeito com o dom que emana de mim para todo o Reino da Perfeição? Dize, meu filho!”

O vivente disse: “Não podeis me julgar por declarar que algo seja feito conforme me aprouver… Vede quanta vida é restaurada quando o Deus da Terra recebe os ex-viventes. Que liberdade é esta e que ordem natural é esta, oh Deuses?”

O Deus da Liberdade respondeu e disse: “Tu demonstraste um grande desvirtuamento do dom que emana de mim e erradicaste o que emana do Deus da Sabedoria! Os Deuses não existem a não ser em completa harmonia… Não te julgues mais sábio do que aqueles que sabem mais do que ti… ”

O Deus da Sabedoria transformou-se numa aparência de uma vivente de aspecto feminino. Disse: “Meu filho, vede a minha pele. O que notas?” Ao que o rapaz disse “velhice”, ela respondeu: “És tolo como disse o Deus da Liberdade, teu pai… Não vês além do que os olhos vêem… Tu não vês e julgas coisas além de tua compreensão… Meu filho, és muito imprudente… Pergunta mais. Escuta mais. Aprende mais. Julga somente por último…”

O rapaz não se contentando com as admoestações, deu de ombros aos Deuses. “Nem mesmo vós, meus pais, me compreendeis! Não vedes sentido no meu modo de ver?”

No momento que o Deus da Sabedoria retornava ao seu aspecto divinal, uma voz que vinha do Mar se fez ouvir de lá até à maré… Era o Deus da Justiça!

“Este mortal não entende a concessão que foi dada aos viventes e se julga mais sábio do que os Deuses! Estás tu, vivente tolo, ouvindo a voz do Deus da Terra reclamando o corpo deste ex-vivente que para cá foi lançado?”

O Deus das Águas sussurrou nas ondas: “Este corpo agora a mim pertence… Este me pertence… ”

O Deus da Justiça: “Este mortal não herdou o dom que emana do Grande Deus da Sabedoria! Nós, Deuses, criamos tudo o que existe, em paz e harmonia, com um perfeito equilíbrio. Para que se garantisse a prosperidade de toda a Criação, estabelecemos a lei da reação natural e inevitável. É ela quem sustenta todo o Reino da Perfeição. Este ex-vivente, resultado da junção do Deus da Morte com o Deus da Liberdade, escolheu por conta própria desvirtuar-se para a temeridade. Eu, o Deus da Justiça, fiz cumprir a ordem natural das coisas, e o Poderoso Deus da Morte, seu próprio originador, o executou e o entregou aquele que lhe era devido, o Deus das Águas. Um desvirtuado também não deixa de se entregar, mesmo antes de seu momento, à ordem natural das coisas… ”

O vivente respondeu e disse: “Há seres das águas e seres da terra… O ciclo natural das coisas poderia e deveria ser sustentado pelos próprios seres que em tais lugares habitam… Talvez nem fosse totalmente necessário a morte dos viventes conscientes para se manter a sustentabilidade do Reino da Perfeição. Eles seriam felizes indefinidamente! ”

O Deus da Sabedoria disse: “É assim que criamos as coisas, meu filho… Tu não tens o conhecimento e a perspicácia necessários para entender e compreender a maldição da eternidade… O retorno à inconsciência é um dom que emana do Poderoso Deus da Morte, sob nossa concessão… Outrossim, nós também agraciamos a todos os viventes conscientes com o dom da liberdade. Eles poderiam usá-la para o aumento do conhecimento e da sabedoria. Poderiam usar a liberdade para manipular a terra e as águas. Poderiam viver em paz e em harmonia uns com os outros. Mas a consciência, um reflexo de nossa Divindade para vós, tornou possível que o dom da liberdade se tornasse libertinagem, o destemor em temeridade, a paixão e o amor em ciúmes e ódio. Meu filho, todas essas coisas trazem consequências naturais… Essas consequências são parte da sustentabilidade do Reino da Perfeição… ”

O vivente olhou em todas as direções do Reino da Perfeição e, enchendo-se de temeridade, desafiou todos os Deuses!

Ele gritou, tal como nunca um vivente gritara antes, proclamando: “Dai-me todos os vossos poderes e dons! Fazei de mim um governante deste Reino! Podereis ver, pelos vossos próprios olhos, quão bem um vivente, com sabedoria e liberdade, e todos os demais poderes, é capaz de trazer maior harmonia e prosperidade para este Reino! ”

Os Deuses então se calaram ruidosamente e houve muito silêncio…

As forças que emanavam de todos os Deuses reuniram-se num único lugar, indescritível, e decidiram, em conjunto, dar ao vivente a oportunidade que ele desejara. Todos os poderes dos Deuses seriam dados ao vivente e a ele seria dado todo o controle para fazer todas as coisas de acordo com o seu entendimento do que era bom e mau.

Os Deuses se fizeram aparecer diante do vivente e disseram, numa só voz: “Tu acreditas que poderás governar todas as coisas ao teu modo. Enganado estás! Todos os viventes que possuem de nós o dom da consciência não estão imunes ao desvirtuamento. Verás que qualquer coisa que fizeres, mesmo coisas grandiosas, não será o bastante para trazer total contemplação para ti. Verás que, mesmo com o uso dos teus poderes ilimitados, não serás capaz de fazer os viventes provenientes de ti, amar-te. Decepcionar-te-ás grandemente em querer ter todo o controle das coisas sob uma falsa égide de liberdade. No final, verás que o que os viventes realmente desejam e anseiam é o retorno a nós, seus verdadeiros criadores. Não importa o que faças, os viventes sempre desejarão o que não conhecem, sim, mas nunca entenderão completamente, pois esta é a grande sustentabilidade do Reino da Perfeição. ”

E finalizaram: “Que sejam desfeitos todos os viventes. A nós – sim – eles pertencem – e a nós retornarão, para que possas então fazeres a tua própria criação, segundo a tua semelhança, conforme desejares…”

O Poderoso Deus da Morte passou pelo Reino da Perfeição e ceifou a vida de todos os seres viventes que possuíam o dom da consciência. Quanto a todo o restante do Reino e seus seres, animados ou inanimados, foram todos absorvidos pelos seus respectivos Deuses. Depois de densas trevas, veio um Nada.

O Conselho dos Deuses disse àquele último vivente: “Neste momento, tu és Tudo o Que Existe. Agora teu nome será Deus Vivente, ou Deus Vivo.” Ao dizerem essas coisas, os Deuses desapareceram…

Então o Deus Vivente percebeu que estava completa e totalmente sozinho, e, embora estivesse no Nada, Ele era Todo-Poderoso. Estava finalmente satisfeito! (…) Neste exato momento, Ele criou o Tempo. E a este momento de criação do Tempo, Ele chamou de Princípio…

No Princípio, Deus criou os céus e a terra…

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