A “anormalidade” homossexual e a Sociologia

Já se perguntou por que tendemos a encarar a homossexualidade, ou os homossexuais, como uma anormalidade?

Esta percepção social é feita até mesmo por indivíduos homossexuais, principalmente nos primeiros anos de seu desenvolvimento, amadurecimento e prática sexuais. Ela acontece, sob a denominação de “aceitação”, independentemente da capacidade racional ou de consciência do indivíduo e a sua eliminação total ou parcial talvez demore um longo período existencial.

A Psicologia é uma ciência de extrema importância para o entendimento individual das crises existenciais provenientes desse processo de desenvolvimento da orientação da sexualidade. No entanto, os fatores que produzem o fenômeno em si são explicitados somente pela observação sociológica. Como funciona isso? Vejamos.

Desde seus primórdios, a Sociologia vem tentando determinar qual o seu objeto de estudo de forma clara e definida. Nessas tentativas, surgiram ricas contribuições explicativas sobre o funcionamento da vida social. A explanação dos porquês das crises existenciais entre os homossexuais pode ser obtida por se observar algumas dessas explicações do funcionamento social. O livro “Regras do Método Sociológico”, de Émile Durkheim, um dos pais da Sociologia, pode nos esclarecer tais questões.

Émile DurkheimA “normalidade” pode ser considerada uma “categoria” de classificação pertencente a dois “reinos” distintos, porém intrincados — o reino fisiológico, orgânico, e o reino social, ideológico. Quando vemos, por exemplo, notícias do nascimento de um bebê com duas cabeças, ou sem as pernas, provavelmente o classificamos, rapidamente,  como portador de uma anormalidade — neste caso utilizamos o fator físico, fisiológico, orgânico. Já quando sabemos de uma pessoa que saiu atirando, sem motivo aparente, num shopping lotado, ou que saiu correndo sem roupas em plena praça pública — automaticamente somos induzidos a classificá-la de anormal, dadas as concepções sociais a que estamos inconscientemente condicionados.

De modo que nós somos restritos a padronizações desde que nascemos — padronizações físicas e sociais. A nossa questão aqui, não obstante, se concentra em determinada dificuldade teórica: a homossexualidade é tida como uma anormalidade social, porém devido à anormalidade física. A questão é complicada.

Para resolvermos esta dificuldade existencial é necessário formular uma análise que elucide, concomitantemente, tanto questões físicas como sociais. De acordo com Durkheim, na obra citada, as questões sociais ‘não são apenas exteriores ao indivíduo, mas são dotadas de um poder imperativo e coercitivo em virtude do qual se impõem a quem quer que seja, querendo-o ou não.” (Capítulo I) Isso explica as crises existenciais sofridas pelos homossexuais no desenvolvimento de sua orientação sexual. Existe uma luta árdua entre aquilo que ele está ideologicamente condicionado a acreditar e aquilo que seu corpo realmente sente. Embora aparentemente exista como possibilidade sexual entre os seres humanos apenas o par oposto macho e fêmea, o adolescente homossexual  passa a perceber outra realidade — para ele real e presente.

A aparente anormalidade física é rapidamente abandonada por se verificar que a sexualidade não serve apenas para a reprodução e que o sofrimento (fator presente em anormalidades) só existe quando a orientação é mal direcionada. O fato da homossexualidade não corresponder ao par oposto macho e fêmea não a classifica categoricamente como anormalidade física, visto haver possibilidade de bissexualidade nos órgãos sexuais. Já atrações sexuais específicas, como por crianças, animais etc., podem ser encaradas como anormalidades — provavelmente tais atrações são impulsos mal direcionados das próprias orientações sexuais saudáveis.

Mesmo assim, mesmo achando que a sua homossexualidade possa ser normal — o adolescente, ou adulto imaturo, pode sentir-se socialmente anormal. Por que eles possuem incondicionalmente esta sensação intrigante?

Palavras de Émile Durkheim: “Toda educação consiste num esforço contínuo para impor à criança maneiras de viver, de sentir e de agir às quais ela não chegaria espontaneamente.” (Idem) Isso significa, aqui na nossa análise, que o adolescente homossexual, mesmo individualmente sentindo-se normal, poderá compartilhar sentimentos frustrantes, que o classificam como anormal. Não podemos nem mesmo culpabilizar os seus instrutores por esta crise, como se tais fossem em si preconceituosos. “Esta pressão a que está submetida a criança a todo instante é, de fato, a pressão do meio social, que tende a formá-la à sua imagem. Seus pais e professores não passam de representantes e intermediários desse meio social.” — Idem.

Será que mudanças são possíveis nesta realidade? Sim, nós estamos passando por isto agora. Nós estamos vivendo num período de crise social, comum em sociedades complexas, formadas por agrupamentos ideológicos distintos. De acordo com Durkheim, embora as mudanças sejam muito problemáticas, enfrentando muita oposição (a sociedade tende a ser conservadora), quando surge determinado sentimento coletivo, isto é na verdade “uma resultante da vida comum, um produto das ações e das reações que ocorrem entre as consciências individuais. Se todos os corações vibram em uníssono, não é por resultado de uma concordância espontânea e preestabelecida; mas por uma força que os move no mesmo sentido. Cada um é resultado do todo.” (Idem) Isso significa que determinado modo de vida, quando coletivizado, produz uma ideologia própria, independente dos indivíduos que o compõem — ou seja, que é possível a construção, na sociedade em si, de uma visão de normalidade para a homossexualidade — internalizada, porém a longo prazo.

A cada geração que se vai e a cada geração que vem, pequenas mudanças são incorporadas. As mudanças são inevitáveis — a única coisa que podemos fazer é adquirirmos para nós mesmos uma posição de conservadores, de moderados ou de progressistas. O importante é evitarmos adotar atitudes revolucionárias ou reacionárias — atitudes radicais que podem gerar muitos danos sociais. É possível conviver com a evolução social de forma pacífica.

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