Pesquisa Sobre o Transe Religioso — Conclusão (parcial)

A mente humana pode ser considerada como possuindo uma parte consciente e uma outra, subconsciente.
Esta parte da mente que chamamos de “subconsciente” é cheia de informações que não conseguimos ter acesso por vias normais da razão. Tais informações nos sobrevém geralmente durante os “estados alterados de consciência”. É o que ocorre, por exemplo, durante os sonhos. Quem nunca teve um sonho e quis, ao acordar, voltar ao mesmo sonho, para terminar algo que não havia acabado nele? Pena que isso seja aparentemente impossível, visto não podermos controlar (neste caso, “entrar”, “retornar”) o subconsciente, exceto aprendamos e desenvolvamos as técnicas do “sonho consciente” ou “sonho lúcido”.
transe religioso
transe religioso típico
Essa contextualização teórica apresentada no parágrafo anterior é muito importante para se explicar os fenômenos aparentemente “paranormais” que ocorrem nos transes religiosos. Os membros dos grupos que participam desses transes mudam de personalidade, durante os rituais, e acreditam que algumas entidades de outro “plano existencial” incorporam em si, provocando determinadas mudanças caracteriológicas (as mudanças radicais de comportamento). Algumas mudanças de personalidade são notáveis: homens heterossexuais comportam-se como mulheres prostitutas (efeminados) – como é o caso da entidade “pombagira”; homossexuais efeminados comportam-se como heterossexuais malandros (postura heteronormativa) – como ocorre nas entidades “zé pilintra”, “malandro”, “tranca-rua”, etc.; indivíduos tímidos comportam-se de forma extrovertida; pessoas aparentemente “requintadas” consomem alimentos de forma exótica (animais vivos, beber sangue, etc.), entre outras bizarrices.
Como se explica tais fenômenos?
 Acabe com seus medos agora!
Por meio da repetição contínua dos rituais é possível que ocorra uma doutrinação psico-mental – que os membros dessas seitas costumam chamar de “doutrinação” ou “desenvolvimento”, mas que aqui chamo de “condicionamento” ou, ainda, “lavagem cerebral”. Isto não é algo impressionante do ponto de vista científico, pois é perfeitamente possível observarmos mudanças comportamentais bastante interessantes durante as sessões de hipnose clínica, como, por exemplo, a anulação completa ou parcial das dores do paciente — isto seria análogo (comparável) aos rituais em que os sectários se expõem a situações fisicamente danosas, e não se restringem à dor, durante o transe — O transe hipnótico bloqueia os receptores da dor. Diversos ramos da ciência já estão utilizando o transe hipnótico para realizar até mesmo cirurgias sem anestesia. Na Odontologia essa prática já é corriqueira e bastante eficaz.
Que dizer das mudanças comportamentais? — Estas ocorrem durante o transe — estado alterado de consciência no qual as informações sobre a personalidade das presumidas “entidades espirituais” afloram do subconsciente, de forma que nem mesmo os médiuns (aqueles que são sinceros), possuem total controle sobre o processo. É realmente parecido com um processo de transe hipnótico ou com o fenômeno da despersonalização, comum em pacientes com o transtorno bipolar, transtorno da personalidade borderline, depressão, esquizofrenia, stress pós-traumático e ataques de pânico. Algumas pessoas parecem ser predispostas mentalmente a desenvolver transes, alucinações, visões, etc., possuindo, aparentemente, mais facilidade a serem cooptadas por tais grupos. Isso acaba por formar uma padronização mais ou menos homogênea de indivíduos no interior dos grupos.
Vale lembrar que durante alguns desses rituais ocorrem certos “imprevistos”. Alguns indivíduos apresentam comportamentos inesperados para aquela determinada situação. Algumas supostas entidades, por exemplo, recusam-se a “subir” (ir embora), esperneiam, causam constrangimento aos líderes locais das seitas, etc. Novamente, isto não é inesperado do ponto de vista clínico. Essa situação inesperada é análoga (comparável) ao que ocorre, em ambiente científico, durante o fenômeno da ab-reação. O indivíduo, durante o transe hipnótico é conduzido de forma subconsciente a um determinado acontecimento traumático. Neste caso, todo tipo de reações estranhas são visíveis: gritos, choros, convulsão, rigidez corporal, dificuldade em retornar do transe, etc. Parece muito bizarro, mas está tudo enquadrado nos parâmetros científicos e já foram amplamente observados.
Em resumo, podemos afirmar que as informações obtidas pelo participante dos rituais e gravadas no seu subconsciente são lançadas para fora, afloradas, manifestas, durante as sessões. Algumas dessas pessoas demonstram desenvolver o Transtorno Dissociativo de Identidade, originalmente denominado “transtorno de múltiplas personalidades”. Alguns, por exemplo, ao andar na rua e serem notados por alguém do sexo oposto (ou do mesmo sexo — homossexuais) crêem profundamente que o possível “candidato amoroso” está atraído, não pela imagem em si do indivíduo, mas pelo “encanto” que emana da suposta entidade. Alguns agem, falam e andam de acordo com o seu entendimento do que seja o comportamento sedutor da suposta entidade — apontando para um possível Transtorno de Personalidade Histriônica ou para o Transtorno de Personalidade Narcisista. Existem relatos de pessoas que ficaram emocional, psicológica e até mesmo mentalmente prejudicadas ao tentarem se afastar de tais seitas ou grupos religiosos.

Considerações de Marcondes Lucena — Professor Licenciado de Sociologia.

Anúncios

3 respostas para Pesquisa Sobre o Transe Religioso — Conclusão (parcial)

  1. […] Considerações de Marcondes Lucena […]

  2. Por muitos anos procurei entender o fenômeno, todas as analise aqui apresentadas vieram de encontro ao que consegui descobrir, primeiramente de forma solitária (deduções, e aqui encontro a confirmação agregando explicações cientificas. ex consciente e subcosnciente, o fato de crerem serem reeceber uma entidade, caindo por terra a hipótese dos chacras ( eclesiastes 9:5 diz que alguém que morre é impossivel comunicar-se com o mundo terreno), ficaria a teoria de que espíritos malignos fariam tal função ( não acreditava ainda nesta hipotse) queria então uma explicação pautável, conclusiva e logica e agora tudo faz sntido.
    Obrigado, não sabem o quanto me ajudaram.

    • RESPOSTA DO BLOG:

      Obrigado por seu comentário. É motivo de alegria que o texto tenha servido de algum esclarecimento para você ou para outras pessoas. Embora o assunto deva ser tratado como aberto a mais pesquisas, esta é uma síntese parcial da conclusão sobre esses fenômenos. Aconselho que se aprofunde no assunto por estudar mais temas relacionados aos fenômenos psicológicos, neurológicos, psiquiátricos, sociológicos e antropológicos. Boa sorte em sua pesquisa.

      Que a Força esteja sempre com você!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: