Pesquisa Sobre o Transe Religioso — Conclusão

A mente humana pode ser considerada como possuindo uma parte consciente e uma outra, subconsciente.

 

Esta parte da mente que chamamos de “subconsciente” é cheia de informações que não conseguimos ter acesso por vias normais da razão. Tais informações nos sobrevém geralmente durante os “estados alterados de consciência”. É o que ocorre, por exemplo, durante os sonhos. Quem nunca teve um sonho e quis, ao acordar, voltar ao sonho, para terminar algo que não havia acabado no mesmo? Pena que isso é impossível, visto não podermos controlar (neste caso, “entrar”, “retornar”) o subconsciente.

 

transe religioso

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Esta teorização é muito interessante para se explicar os fenômenos aparentemente inexplicáveis, que ocorrem nos transes religiosos. Os membros desses grupos mudam de personalidade, durante os rituais, e acreditam que algumas entidades de outro plano existencial incorporam em si, provocando as mudanças caracteriológicas. Algumas mudanças de personalidade são notáveis: homens heterossexuais comportam-se como mulheres prostitutas (efeminados), homossexuais efeminados comportam-se como heterossexuais malandros (postura heteronormativa), indivíduos tímidos comportam-se de forma extrovertida, pessoas aparentemente “requintadas” consomem alimentos de forma exótica (animais vivos, beber sangue, etc.), entre outras bizarrices.

 

Como se explica tais fenômenos?

 

Por meio da repetição contínua dos rituais é possível que ocorra uma doutrinação mental-psicológica. É possível observarmos mudanças comportamentais interessantes durante as sessões de hipnose clínica, como, por exemplo, a anulação completa ou parcial das dores do paciente — isto seria análogo aos rituais em que os sectários se expõem a situações fisicamente danosas, e não se restringem à dor, durante o transe — O transe hipnótico bloqueia os receptores da dor.

Que dizer das mudanças comportamentais? — Estas ocorrem durante o transe — estado alterado de consciência no qual as informações sobre a personalidade das presumidas “entidades espirituais” afloram do subconsciente, de forma que nem mesmo os médiuns (aqueles que são sinceros), possuem total controle sobre o processo. É realmente parecido com um processo de transe hipnótico ou com o fenômeno da despersonalização, comum em pacientes com o transtorno bipolar, transtorno de personalidade borderline, depressão, esquizofrenia, stress pós-traumático e ataques de pânico. Algumas pessoas parecem ser predispostas mentalmente a desenvolver transes, alucinações, visões, etc., possuindo, aparentemente, mais facilidade a serem cooptadas por tais grupos. Isso acaba por formar uma padronização mais ou menos homogênea de indivíduos no interior dos grupos. Esta teoria será explanada posteriormente.

 

Em resumo, podemos afirmar que as informações obtidas pelo participante dos rituais e gravadas no seu subconsciente são lançadas para fora, afloradas, manifestas, durante as sessões. Algumas dessas pessoas demonstram desenvolver o Transtorno Dissociativo de Identidade, originalmente denominado “transtorno de múltiplas personalidades”. Alguns, por exemplo, ao andar na rua e serem notados por alguém do sexo oposto (ou do mesmo sexo — homossexuais) crêem profundamente que o possível “candidato amoroso” está atraído, não pela imagem em si do indivíduo, mas pelo “encanto” que emana da suposta entidade. Alguns agem, falam e andam de acordo com o seu entendimento do que seja o comportamento sedutor da suposta entidade — apontando para um possível Transtorno de Personalidade Histriônica ou para o Transtorno de Personalidade Narcisista. Existem relatos de pessoas que ficaram emocional, psicológica e até mesmo mentalmente prejudicadas ao tentarem se afastar de tais seitas ou grupos religiosos.

Considerações de Marcondes Lucena

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