O mundo é uma interpretação

A realidade é e sempre será a realidade. Ela é em si mesma a verdade. A nossa questão é que, nós, humanos, construímos um universo simbólico muito amplo, tornando possível variadas interpretações desta realidade. E tais interpretações acabaram por tornar-se, por assim dizer, a própria realidade, para aqueles que as conceberam.

A dificuldade de relativização nas relações sociais, no que diz respeito às visões de interpretação das coisas pode causar conflitos em tais relações. Algumas pessoas (a maioria delas) acreditam profundamente naquilo que entendem por realidade, a ponto de possuir uma visão de estranhamento (outras chegam, às vezes, ao sentimento de repulsa ou até mesmo de perseguição) às demais formas de padronização social.  Elas desejam ter algo em que realmente acreditar, dando-lhes um chão no qual possam pisar seguramente. O relativismo é uma ideia bem difícil para tais pessoas.

O mundo objetivo é frio e inóspito para as pessoas e suas culturas, condicionadas com a “realidade virtual” na qual foram inseridas coercitivamente por meio dos padrões socioculturais, desde o nascimento. Um fenômeno social, ou até mesmo um simples elemento da realidade, pode ser visualizado de maneiras completamente diferenciadas por pessoas diferentes — quanto mais por pessoas de grupos diferentes!

Exemplificando, vejamos o caso de visão de mundo de duas religiões modernas: as Testemunhas de Jeová e os Santos dos Últimos Dias ou Mórmons. As primeiras aceitam apenas a Bíblia como livro sagrado, já os segundos aceitam a Bíblia e alguns outros livros em acréscimo, entre eles o Livro de Mórmon. Esta diferença de aceitação de livros como sagrados interfere diretamente na visão de mundo de tais grupos. As Testemunhas de Jeová creem na infalibilidade da Bíblia, enquanto os Mórmons a consideram incompleta e até mesmo adulterada (no sentido de alteração) em alguns pontos, dando respaldo adicional para a necessidade de novas revelações inspiradas. De modo que as incoerências encontradas em diversas passagens da Bíblia são, por um lado harmonizadas pelas Testemunhas de Jeová por meio de argumentações diversas, por outro lado usadas como subterfúgio para a necessidade de “profetas vivos”, pelos Mórmons. Veja um exemplo de tais incoerências:

Judas: como foi sua morte?
Judas: como foi sua morte?

Na passagem bíblica de Mateus 27: 5 informa-se que o traidor de Jesus Cristo, o apóstolo Judas Iscariotes, cometeu suicídio por enforcamento. No entanto, no livro dos Atos dos Apóstolos, também um livro da Bíblia, comenta-se que a morte do apóstolo traidor foi causada por ele se jogar de cabeça para baixo em algum local, partindo o seu corpo ao meio. (Atos 1: 18) Como explicar essa incoerência ou erro de narração num livro considerado sagrado? Isto parece não ser problema para as Testemunhas de Jeová. O Corpo Governante (comissão que lidera as Testemunhas de Jeová mundialmente) explica esta incoerência com as seguintes palavras:

Mateus parece tratar da maneira do pretendido suicídio, ao passo que Atos descreve o resultado. Juntando os dois relatos, parece que Judas tentou enforcar-se no alto dum penhasco, mas que a corda ou o galho da árvore rebentou, de modo que despencou e rebentou nos rochedos embaixo. A topografia em volta de Jerusalém torna isso concebível. — WATCHTOWER BIBLE AND TRACT SOCIETY. Estudo Perspicaz das Escrituras. Vol. 2. P. 618. 1991.

Humor: Mórmons vs Testemunhas pelo território de pregação

Humor: Mórmons vs Testemunhas pelo território de pregação

Já os escritores Mórmons não parecem desejar muito realizar tal defesa, embora creiam na Bíblia como sagrada e inspirada por Deus. O livro Regras de Fé, no artigo oitavo, declara: “Cremos ser a Bíblia a palavra de Deus, o quanto seja correta sua tradução.” O líder dos Santos dos Últimos Dias Gordon B. Hinckley escreveu no panfleto Quem São os Mórmons? que as muitas religiões existentes “prestam testemunho da insuficiência da Bíblia”. Já Orson Pratt, apóstolo da Igreja Mórmon, foi mais categórico: “Quem garante que um versículo sequer da Bíblia inteira tenha escapado de deturpação?”.  — WATCHTOWER BIBLE AND TRACT SOCIETY. Awake!, 8/11/1995. p. 20.

De modo que as pessoas nascidas em tais religiões, naturalmente, terão visões completamente diferenciadas a respeito de um mesmo elemento simbólico: a infalibilidade da Bíblia. E também, como já comentado, estas visões irão interferir clara e diretamente na vida de tais indivíduos, em sua interpretação da realidade.

É uma tarefa muito difícil, quase impossível, harmonizar todas as visões de mundo numa única perspectiva universalizante. O processo desejado por alguns, de padronização mundial, ou de globalização, não pode se tornar possível sem uma educação bem centralizada, baseada em princípios pragmáticos. Até mesmo a ética, por ser obra humana, baseada no entendimento do que é bom ou mau para a convivência social, sofre em seus conceitos devido às tendências provenientes do relativismo. Nota-se que até mesmo o desejo de formular uma ideia de “ética universal”, que seria aquela baseada na noção de defesa da vida, possui restrições conceituais importantes. Isto acontece devido ao fato de nem todas as culturas possuírem tal noção ou entendimento de “vida”. Por exemplo, algumas tribos indígenas no Brasil eliminam seus bebês quando eles nascem com alguma deficiência e algumas tribos de esquimós não vêem mal algum em deixar um pai ou mãe idoso para trás, caso esteja em jogo o sucesso, por exemplo, de um deslocamento de todo o grupo. A noção de “amor” ou de “pena” não deixa de ser, também, cultural, aprendida. *

Cristianismo

Cristianismo

Pense agora na visão que possuímos de nós mesmos. Existe um “eu”, de fato? Esta pergunta possui inúmeras respostas. É fato que até mesmo a realidade daquilo que chamamos de “eu”  pode sofrer diferentes interpretações. Sim, nós mesmos somos interpretações de nós mesmos. Por exemplo, no sistema religioso cristão tradicional existe a perspectiva de continuação da existência consciente, isto é, o crente possui uma esperança de continuar a experiência de vida, de manter traços da personalidade desta vivência terrena (o “eu” atual) numa existência futura, perfeita.** Esta perspectiva parece ser incognoscível ao entendimento racional. Não encontramos no Cristianismo um porquê da eternidade. Qual o sentido de se desejar viver para sempre? O que vem com ou depois da eternidade?… Já completamente diferenciado a este respeito, se nos apresenta o Budismo. Embora esteja amplamente sectarizado, dividido em várias ramificações, esta corrente filosófica não entende o “eu” como faz a maioria das pessoas. Parece não haver, de fato e terminantemente, um “eu” em si. Nós somos, nesta corrente, passageiros, mutantes. Devido à concepção de que estamos a todo o tempo em contínua mudança, tanto física como espiritual, afirma-se que o “eu” de há pouco já não é o “eu” de agora. *** Este raciocínio é bem interessante. Veja o seu caso, por exemplo. Antes de você ler este texto era exatamente “alguém que ainda não leu este texto”. Agora, mesmo que isso não seja muita coisa, é “alguém que já leu este texto”. Essa mudança faz de você, por assim dizer, duas pessoas diferentes, se levarmos em conta a questão “tempo”.

Budismo

Budismo

Obviamente, tais diferenças doutrinais irão interferir diretamente no dia-a-dia das pessoas, na vivência da realidade. É o que observamos ao analisar o modo de vida das pessoas, ao demonstrarem suas crenças. Alguém que não segue tais ideologias religiosas, por exemplo, possuirá óbvias tendências para o apego às coisas efêmeras da vida, procurando aproveitar a curta existência que resta para se viver. Por outras palavras, procura-se “curtir a vida”. Já aqueles que acreditam e seguem tais correntes religiosas costumam levar uma vida mais calma, possuem esperanças para o futuro, têm menos medo da morte e geralmente se sentem mais felizes, pois acreditam possuir um “sentido na vida”. As relações amorosas das pessoas que possuem essas filosofias mais duradouras também são mais firmes e eficazes, pois baseiam tais relacionamentos não apenas nos fatores físicos, sujeitos à decomposição, e sim em algo que pode durar e sustentar por toda a vida. Para estes, por mais que a realidade seja igual a dos demais — visto que nascem, crescem, se reproduzem e morrem — a interpretação de tal realidade torna-se, para os mesmos, o que realmente importa.

Não importa qual seja a sua interpretação da realidade, acredite em algo. A vida só possui um significado para aqueles que esforçam-se a atribuir um significado. Na verdade, por mais relativas e variadas que sejam as visões de mundo, a sua nunca será igual a dos demais. Pois, por mais esforços de doutrinação que existam, a nossa concepção, aceitação ou absorção das mesmas sempre será ímpar. É o que ninguém poderá nos roubar: a nossa idiossincrasia — o nosso mundo!

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* Veja A Relatividade dos Códigos Morais, disponível em http://paulonogueira.com.sapo.pt/Textos_de_apoio10/Unidade_03/Texto23.pdf, em 27 de junho de 2011, às 19:0 H.

** Veja A Esperança Cristã na Via-Sacra no Coliseu de Roma, com o Papa Bento XVI, disponível em http://www.catolicismoromano.com.br/content/view/420/33/, em 27 de junho de 2011, às 19:0 H.

*** Veja Anatta – A Doutrina do “não-eu”, disponível em http://www.nossacasa.net/shunya/default.asp?menu=969, em 27 de junho de 2011, às 19:0 H.

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