Agnósticos — Concebam os Níveis Incognoscíveis!

Existem algumas concepções em que há a possibilidade de apreensão concomitante à incapacidade de compreensão. Para alguns esta ideia é simplesmente implausível, visto consentirem o processo cognitivo como uma trajetória sempre linear, no sentido percepção > compreensão > apreensão. Bem, isso pode ser verdade no campo dos aprendizados materiais, empíricos. Mas o ser humano não vive somente de materialismo — isto é o que o torna especial, as abstrações.

De fato, nós montamos ao longo da história um universo simbólico tão amplo e complexo que tornou-se possível até mesmo haver uma inversão no processo cognitivo linear, em dadas situações.

Os níveis incognoscíveis

Por definição, o processo cognitivo é o processo da aprendizagem. Este é primeiramente assistemático, passando a ser didático, ou sistemático, somente algum tempo após o nascimento do novo ser humano. A aprendizagem sempre se dá por meio de abstrações, mesmo quando trata-se de algo prático ou material. Isso ocorre porque, depois de alguma percepção física, pelos órgãos dos sentidos, gera-se sempre um quadro mental a respeito daquela realidade ou experiência. Por exemplo, quando uma criança toma um choque elétrico na tomada; aquela percepção danosa gera uma compreensão mental da sensação, esta compreensão é apreendida, ou absorvida, e passa agora a fazer parte da personalidade da criança. Ela aprendeu o que é um choque elétrico.

No exemplo citado, a apreensão só foi possível por meio da compreensão gerada pela percepção sensorial, a sensação. No entanto, como comentado no início, entre nós seres humanos é possível haver uma inversão no processo linear, devido a nossa capacidade de abstração ímpar. Deve-se notar que esta inversão do processo cognitivo somente acontece quando o objeto cognitivo são ideias, que dispõem sensações físicas.

Devido a tal noção, podemos afirmar que existe a possibilidade da existência de variados universos de apreensão. Isso pode nos levar a inferir até mesmo na existência de outros níveis de realidade incompreensíveis à nossa mente humana. É por isso que afirmou-se que algumas coisas podem ser apreendidas (como esta ideia), mas não compreendidas. Não é verdade que a compreensão está muito ligada à sensação e a apreensão à abstração?

Níveis de realidade

Nós podemos presenciar vários níveis, ou universos, de realidade no nosso Universo total. Embora pareça uma coisa simplória, é necessário reconhecer a existência, por exemplo, do universo das cores, dos sons, dos sabores, das temperaturas, etc. Todos eles se unem na formação de uma mesma realidade.

Isso que foi colocado acima somente é perfeitamente compreendido quando acontece a alguém, por algum motivo, de ser privado o acesso a algum desses universos mencionados. Por exemplo, como se explicar a cor azul a alguém que é totalmente cego, desde o nascimento?  As palavras “cor” e “azul” inexistem no seu quadro mental de compreensão, devido a falta de sensação, mas há a possibilidade de apreensão da existência desse universo das cores, visto que os que enxergam o narram.

Agora, pensando em nosso caso, o que garante a não existência de universos incognoscíveis, ou de níveis de realidade incompreensíveis? Não seríamos nós como “cegos”, não podendo compreender a interpretação das “cores” simbólicas? No entanto, visto entendermos este questionamento, prova isto é de que o processo cognitivo linear possui exceções.

Os níveis e a verdade

Esta suposição a respeito de uma possibilidade existencial de níveis de realidade por nós incognoscíveis deixa “em xeque” a suposição de uma verdade absoluta e dominante. Por quê? Simplesmente pelo fato de tais realidades incognoscíveis só poderem ser apreendidas, porém jamais compreendidas.

O que é a verdade a não ser a medição de algo que foi compreendido por meio de referenciais preexistentes? Por exemplo, se eu compreender a priori que uma unidade mais uma unidade é igual a duas unidades, a soma um mais um sempre será dois não importa quais sejam tais unidades. Logo eu poderei dizer que é verdade, ou verdadeira,  a afirmação de que uma bala mais uma bala é igual a duas balas. Para haver verdade é necessário haver compreensão, que sempre provém de sensações. Nunca uma apreensão de uma ideia proveniente do inatismo produzirá verdades absolutas. Devemos lembrar aqui que o que move o intelecto é sempre a falta ou ausência do saber, coisa que a verdade absoluta elimina. De modo que, querendo ou não, se o ser humano pudesse conceber e apreender, compreendendo, todos os níveis de realidade existentes, que graça haveria em se viver, se a grande jogada da vida é imaginar aquilo que não se sabe?

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