O caos Inevitável

“Quem pensa em fazer apenas o bem está procurando a própria ruína e não a proteção, num mundo em que todos são maus.” Assim escreveu Nicolau Maquiavel há mais de 4 séculos atrás, no seu famoso livro O Príncipe. Quantas polêmicas e debates foram travados em cima de tais proposições! Diversos foram os autores que terceram comentários sobre o tema, incluindo o Imperador Napoleão Bonaparte, da França…

Ora, será mesmo que todos  os humanos são maus por natureza? O que é ser mau ou bom? O que é a bondade ou a maldade? É o relativismo que nos coloca dificuldades teóricas em chegarmos a sínteses conclusivas! Não obstante, essas questões precisam ser respondidas e lidadas pelas Ciências Sociais, especialmente pela Sociologia.

Nos recordamos bem da primeira Escola antropológica, o Evolucionismo. Aqueles sábios teóricos imaginavam que todas as culturas evoluem naturalmente dos estágios mais primitivos ao estágio da mais pura civilização, que seria a imagem de sua própria sociedade. Ora, se a teoria era verdadeira ou não, não importa. O que importa é que eles não poderiam fugir de um questionamento que está agora mesmo nos perturbando como uma pulga atrás da orelha: aonde a evolução nos levará?

Karl Marx, importante teórico do Comunismo, supunha que a humanidade perpassa por um processo contínuo de aprendizagem. Ao surgir uma necessidade concreta, o homem imagina um meio ou vários meios de resolver aquela situação.  Essa imaginação ele chamou de “pré-ideação”. A transformação de uma idéia em prática, leva a uma “objetivação”. É como se um primitivo precisasse partir um coco e para isso ele coletasse da natureza um pau e uma pedra e fizesse um machado. Bem, as objetivações, segundo a teoria de Marx, levaria a um “período de consequencias”, isto é, a invenção como que ganha vida própria ao ser lançada à sociedade. Ela agora existe fora da consciência e isso é um processo inevitável. Pois bem, indo adiante, supõe-se que as objetivações conduzem a novas necessidades, e que as pré-ideações para algumas necessidades específicas, às vezes trazem objetivações para outras necessidades, por meio de um processo chamado por alguns de insight. É mais ou menos como se um cientista fosse pesquisar um átomo para fabricar energia e descobrisse que poderia fabricar uma bomba. Ora, não é que fizeram isso mesmo!

O mais importante nessas concepções é o seguinte: o acúmulo de novas informações, isto é, o know-how,  se trata de algo inevitável, pois não existe mais na consciência do indivíduo. Por exemplo, depois que se descobriu o know-how da bomba atômica, é bem difícil que ela seja algum dia extinta. Isso faz parte do processo de acumulação do conhecimento. Agora, novamente, que o homem descobriu o sistema de acumulação de bens por meio da exploração de outros homens e deu os parâmetros legais a tal prática, por meio do sistema capitalista, é improvável que isso seja extinto. Parece-nos  que o caos é inevitável!

O caos inevitável?  Sim, é verdade.  Nós não estamos falando aqui de um holocausto provocado pela ira divina, como muitas seitas apocalípticas tanto se preocupam. Estamos refletindo sobre um drama mais realista e iminente, gerado pelo próprio ser humano! Mas como isso aconteceria? Vejamos algumas evidências.

Primeiramente, devemos ter em mente, como fator principal, a questão mais cuturalmente importante para a humanidade: a passagem dos fatores culturais de uma geração a outra, por meio da linguagem etc. Querendo ou não, são os processos sociais de passagem de princípios que serve de sustentáculo de qualquer cultura. Deus, por exemplo, é uma idéia que inexiste no ser humano se ele for colocado à parte da sociedade. Exemplos notáveis nos demonstram esta premissa, como o caso de Amala e Kamala, as meninas “lobos”, que foram encontradas no século XX (em 1920), na Índia,  convivendo desde pequenas entre lobos. A mais nova, de 2 a 4 anos, se adaptou normalmente à nova convivência, mas quanto a Kamala, de cerca de 8 anos, progrediu muito lentamente no processo de socialização. Amala morreu um ano após ser encontrada; a mais velha, porém, conseguiu sobreviver mais 8 anos, somente falando algumas palavras após 6 anos de convivência e tendo falecido com um vocabulário de mais ou menos 50 palavras. É importante lembrar que elas duas somente andavam de quatro, uivavam pra lua e se alimentavam de carne crua. Há algumas outras experiências sociológicas que comprovam a importância da socialização para a aprendizagem da linguagem e desta para o processo de humanização. Sem a socialização não há a linguagem e sem a linguagem não há a humanização.

Mas o que isso tem a ver com as nossas reflexões? Bem, tem tudo a ver. Conforme estávamos a comentar logo acima, não existem idéias humanas, como a de Deus, no exemplo, se as pessoas não forem socializadas. Essas idéias, incluindo a de espiritualidade, só existem devido a nossa capacidade de abstração, que é puramente humana. É verdade que todos os seres humanos possuem a capacidade, devido ao cérebro; mas a não aprendizagem levaria à ociosidade. É parecido a uma perna que fica sem movimentos por fatores neurológicos: os músculos locais podem estar perfeitos, mas logo se tornarão atrofiados, devido a falta de movimentos. O mesmo aconteceria com um ser humano sem socialização, a capacidade cerebral estaria intacta, mas tal capacidade com o tempo se “atrofiaria” a ponto de o status de ser humano ficar demasiadamente comprometido.

Voltando ao assunto da cultura, devemos supor que esta somente é possível porque a acumulação do conhecimento, conforme apresentou Karl Marx, se dá em sociedade. Aquilo que sabemos hoje, as palavras e conceitos, por exemplo, existem há muito tempo atrás de nossa existência. Isso nos faz lembrar o conceito de Émile Dhürkheim, importante sociólogo, sobre o fato social, isto é, que este é exterior, geral e coercitivo. Ora, quando nós nascemos, por exemplo, já estamos incluídos numa dada sociedade. Teremos que aprender a nos comunicar usando aquele idioma, senão jamais faríamos parte daquele grupo realmente. Queiram notar, então, que o idioma nativo de um grupo ou sociedade é exterior (não se gera no indivíduo recém-nascido), é geral (já estava na sociedade do indivíduo) e é coercitivo (é necessário ser aprendido). Ora, isso é o que dá base para a perpetuação de qualquer grupo que seja: a passagem de fatores sociais já existentes de uma geração a outra. Estamos fazendo isso? Esta é uma boa pergunta…

Não podemos negar que a linguagem é passada de uma geração a outra em nossos dias. Isso é um fato. Mas, para a perpetuação da sociedade não basta a passagem da linguagem, isso foi apenas um exemplo. Que dizer dos princípios? Estes não estão sendo passados, e se estão sendo, estão sofrendo mudanças muito bruscas.

Analizando os princípios das gerações passadas, podemos notar que as concepções que a sociedade possuía de instituições importantes da cultura sofreram muitas mudanças, se é que não desapareceram. A religião e a família, por exemplo, possuem um enquadramento social atualmente muito diversificado. É claro que sempre existiram filhos que mataram seus pais e pais que mataram seus filhos, mas nós não estamos falando disso. As mudanças estão acontecendo na própria estrutura. Os fatores que antigamente eram considerados “transcendentes”, e que serviam de certo modo como uma “liga social” para a família, já não existem mais em muitos locais. A ausência dessa ideologia social parece ser um problema generalizado. O mesmo acontece com a religião. Nos períodos anteriores, a religião recebia grande conotação no sentido de precisar ser verdadeira ou não. Atualmente, devido, cremos, ao que este padrão gerou à humanidade, a fé está cada vez mais sendo distinta das instituições religiosas. O conceito de relativismo, fruto do funcionalismo, talvez seja um dos grandes responsáveis por essa mudança de conceito que presenciamos.

Bem, mas as mudanças na passagem de princípios de uma geração a outra talvez não sejam o principal causador do caos. As mudanças sociais materiais, concretas, também cumprem seu papel. E um papel importante nessa conjuntura! Por exemplo, embora nós saibamos que a humanidade possui os meios (e isso desafogadamente!) de resolver seus problemas materiais, como a fome etc, as sociedades não parecem estar caminhando para tal realidade.  Esta enorme crise econômica, por exemplo, fez com que o governo dos Estados Unidos desenbolsasse  trilhões de dólares de seus cofres públicos. Onde estava esse dinheiro quando a África e sua miséria clamam por ajuda? Vai lá saber! O certo é que o dinheiro, mesmo que “digital”, existe! Outro dado alarmante é o problema da má distribuição de bens no mundo inteiro. Calcula-se que a produção de alimentos no mundo possa suprir as necessidades de mais de 8 bilhões de pessoas. A humanidade ainda está chegando a 7 bilhões, de modo que o nosso grande problema é a distribuição, e a não a produção, como imaginou Thomas Malthus, o economista britânico.

Mas por que os problemas materiais também contribuirão para o caos generalizado? Ora, porque as bases que sustentam a resignação estão fadadas à ruína. Imagina-se mesmo que a alienação, seja ela qual for, conseguirá conter as revoltas sociais para todo o sempre? Enganam-se! Aquilo que aliena, a religião, por exemplo, está fracassando, principalmente pelo já apresentado problema da não-passagem dos princípios às próximas gerações. Junto com isto, o avolumamento cada vez maior dos problemas materiais.

Chegamos agora a um momento-chave: será que o caos futuro da humanidade pode ser evitado? Bem, o nosso título trata, conforme se nota, de um “caos inevitável”. O próprio nome já explica tudo, embora se possa imaginar ou sonhar o contrário. É bem verdade o que supôs K. Marx: depois da objetivação, novas ideações. O know-how parece ser exterior, geral e coercitivo!

Mas não falava Marx num contexto dialético? Sim, é verdade. E nós não estamos usando a filosofia marxiana para “colocar palavras na boca” de Karl Marx. Estamos usando apenas a filosofia da acumulação do conhecimento e isto é só. Aliás, isto é só até certo ponto, porque também não queremos fazer manipulações de informações ou descontextualizações. Mas, uma coisa é evidente: embora o processo de acumulação de conhecimentos possa ser realmente “reapropriado”, conforme queria Marx por meio do Estado Comunista, devemos ter presente também que isso seria e sempre será um “paleativo”. Ora, o Comunismo até que seria um bom fator de retardamento do caos da humanidade. Quem sabe se não mesmo até uma solução! Mas, que pena que, relembrando Maquiavel, citado no início, o ser humano é mau e alienado: não sabe nem mesmo conter aquilo que ele mesmo está fazendo com que o aniquile, ou aniquile a seus filhos e netos ou as suas  gerações futuras! (…)

 

Este texto trata-se de uma reflexão axiológica, portanto, calma, o caos total ainda pode demorar!

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