Política, sim. Religião, jamais!

Eu estava lendo recentemente um interessante livro histórico pertencente à nossa língua portuguesa. Trata-se das Ordenações Afonsinas, código de lei portguês do século XVI. Embora o texto use um palavreado de díficil entendimento,  devido ao português arcaico, algumas coisas podem ser entendidas, principalmente com a ajuda de pesquisadores atuais.

Ordenações Afonsinas

Ordenações Afonsinas

As Ordenações Afonsinas foram escritas num contexto histórico em que as leis civis eram demasiadamente influenciadas pelas leis religiosas, da Igreja Católica Romana, uma das seitas do cristianismo.  Deparei-me com as intrigantes declarações sobre a homossexualidade, ou a “prática da sodomia”. O trecho diz que “sobre todos os pecados, bem parece ser o mais torpe, sujo e desonesto o pecado de Sodomia, e não é achado um outro tão aborrecido ante a Deus e o mundo”.  Devido a ser o “pior” de todos os “pecados”, qual seria a “melhor” punição? Depois de lembrar as punições que Deus executara em vários povos mencionados no passado bíblico, o mesmo código de leis responde categoricamente:  “Portanto mandamos que todo homem que tal pecado fizer, por qualquer guisa que ser possa, seja queimado e feito pelo fogo em pó, por tal que já nunca de seu corpo e sepultura possa ser ouvida memória.”  (Ordenações Afonsinas, Livro V, Título XVII. Os grifos são meus. ) Ou seja, deveria-se queimar o indivíduo até às cinzas, para que dele não se restassem nem mesmo a memória ou lembrança!

Ordenações Afonsinas (cont.)

Ordenações Afonsinas (cont.)

Ora, nós não devemos, evidentemente, querer condenar todos os cristãos pelo fato de tal “ordenação” ter sido posta em prática como realmente foi! Mas, como é óbvio e racional, o estudo da História da Humanidade deve-nos ser útil para alguma coisa, caso contrário, não deveríamos nem mesmo estudá-la! Em que sentido tais casos de extremismos religiosos são úteis como fonte de pesquisa?

Bem, várias aplicações acerca de tais irracionalidades podem ser feitas para a nossa atualidade! Mas algo intrigante é que, mesmo surgindo alguns questionamentos importantes desses fatos antigos, não temos quase nenhuma reação histórica positiva! Por exemplo, já se perguntou: Por que as religiões insistem em querer impor seus princípios numa sociedade heterogenea?  Por que pessoas que não seguem uma determinada ideologia religiosa não podem ter seus próprios meios de convivência e sobrevivência sem serem suprimidas por pessoas crentes e fundamentalistas? O que a religião tem de universal a ponto de querer tornar-se universalizante?

Assuntos polêmicos, tais como a legalização do aborto ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, são tão banais e casuais entre aqueles que neles aderem que não deveriam nem mesmo ser mencionados por entre aqueles que não são afetados. Será que alguém que é contra o aborto até à morte abortaria uma criança só porque a lei permite? Será que um indivíduo heterossexual (o considerado normal) se casaria com um gay só porque isso é agora permitido? Você consegue perceber onde entram os problemas? Consegue perceber que quase nada muda nos indivíduos com a lei ou sem a lei? Consegue perceber que tais leis religiosas-ideológicas são na realidade uma tentativa fundamentalista de tentar coibir algo que tais religiões ou ideologias já não conseguem mais proibir?

Ora, a História já nos revelou bem claramente: a religião e a política formam uma mistura perigosa! Será que vamos continuar dando apoio a tais estruturas? Pense nisso!

Nota: Para ler a obra Ordenações Afonsinas, original e em fac-símile, clique aqui.

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