Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire (Filosofia)

Parte 1
Pedagogia da Autonomia
 
  Para se entender o que trata o livro Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, precisamos verificar a análise de cada um dos termos que formam a expressão “pedagogia da autonomia”. Depois que se faz essa verificação pode-se obter um melhor entendimento da relação que a obra no total mantém com o tema da liberdade humana, além de ser necessário, também, que se entenda o princípio da inconclusão humana neste estudo da pedagogia baseada na autonomia.

Bem, partindo para os significados dos termos da expressão, podemos concluir que incluso na palavra pedagogia se encontra uma menção ao método a ser adotado na arte da educação, na arte de ensinar. Logo verificamos que na expressão “pedagogia da autonomia”, sendo a pedagogia o método — a obra Pedagogia da Autonomia deve tratar de um método de ensino baseado na autonomia. O que se pergunta agora é a que tipo de autonomia a expressão se refere.

Na parte do livro chamada de “primeiras palavras”, Paulo Freire cita o princípio da inconclusão do ser humano como base para essa mencionada pedagogia da autonomia. Essa relação entre inconclusão humana e a expressão “pedagogia da autonomia” pode ser importante para se entender a que autonomia a expressão se refere. Neste caso, o termo inconclusão se refere à falta de essência humana no próprio ser humano. O homem é constantemente colocado como um ser inerentemente social para poder ser humano no sentido de humanidade. A humanidade do ser humano é colocada como um fator histórico, passado pelas gerações para as gerações e em constantes mudanças. Esse princípio comprovável de incompletude humana é o que serve de base para a criação do termo e da idéia “pedagogia da autonomia”.

Alguns, no entanto, podem se perguntar que relação há entre a falta de essência no ser humano e a pedagogia da autonomia como método. Isso, na realidade, ocorre porque, dada a falta de essência e completude, o homem precisa ser socializado. Mas a socialização idealizada por Paulo Freire vai além de um simples preenchimento para essa falta de essência intrínseca no homem. A socialização idealizada por ele se direciona para uma continuação de inconclusão, mesmo após a fase de socialização “completa”. Ele entende que o homem deve ter os meios necessários para poder fazer uma análise crítica e em movimento de sua própria socialização. Isso tem algo a ver com o tema da liberdade humana. Vejamos por quê.

Partamos do princípio de que o homem é sem essência. Daí cheguemos à idéia de que ele precisa preencher essa lacuna para poder ser humano. Logo verificamos que esse preenchimento é preconceituoso, visto ser um elemento cultural, histórico, mutável. Agora seguimos para a questão do desenvolvimento da capacidade de crítica do indivíduo. Neste ponto, exatamente neste ponto, chegamos ao entendimento do termo Pedagogia da autonomia.

Ora, se nós entendemos que o homem aprende nada mais que preconceitos (no sentido de conceitos culturais concebidos anteriormente ao indivíduo e a ele transmitidos), devemos conceber a idéia de que ele precisa obter uma forma ou um método que o capacite a julgar tais preconceitos. E tal julgamento deve ser de uma forma baseada na ética universal, isto é, em defesa incondicional da vida. Mas perguntamos: Pode tal método ser realizado de uma forma em que não haja os meios de ensino para isso direcionados? Portanto, o livro Pedagogia da Autonomia trata justamente disso: como educadores e educadoras podem direcionar os seus métodos e ideais para uma educação baseada no princípio e direito da liberdade do ser humano de poder rever, avaliar e até mesmo mudar ou complementar os seus preconceitos para ele passados pelos seus fatores culturais em que foi criado.

Esse tema de liberdade do ser humano de poder escolher eticamente quais são os fatores que irão continuar fazendo parte de sua essência, justamente pelo fato de sua essência ter sido formada por outrem, é importantíssimo na e para a educação. Isso deve ser melhor analisado, pelo menos no estudo de um dos capítulos do livro Pedagogia da Autonomia.

 
Parte 2
Comentário ao Capítulo 1.7
 
Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação

  

 Em toda a obra Pedagogia da Autonomia Paulo Freire cita vez após vez a expressão “pensar certo”. Evidentemente, isto não implica o “pensar certo” entendido formalmente, como se algo fosse inerentemente verdade. O pensar certo deve se referir ao uso consciencioso da capacidade de pensar. Isso fica claro na seguinte citação: “Só, na verdade, quem pensa certo, mesmo que, às vezes, pense errado, é quem pode ensinar a pensar certo.” (O grifo é nosso. Freire, 2007, p. 27) Ora, esta expressão “pensar certo” é utilíssima na prática da educação. Isso nos remete para algo muito além das salas de aula, para algo quase que transcendente — o sentido das coisas.

Nós notamos que tudo, absolutamente tudo do que fazemos, precisamos dar um sentido para uma efetuação plena da atividade. Uma atividade que não nos tenha sentido não traz felicidade, contentamento. Isso ocorre até mesmo na questão da existência humana! Aqui vai um convite um tanto profundo para uma análise plena dos problemas dos jovens e, por extensão, da educação e da sociedade: não seriam tais problemas causados pela incapacidade da sociedade de prover um sentido duradouro nas atividades dos seres humanos? Nós podemos facilmente imaginar tal premissa na prática, na realidade existencial. Vamos a alguns exemplos.

Paulo Freire nos diz: “É próprio do pensar certo a disponibilidade ao risco, a aceitação do novo que não pode ser negado ou acolhido só porque é novo, assim como o critério de recusa ao velho não é apenas o cronológico.” (freire, 2007, p. 35) Vejam aqui que Paulo Freire nos apresenta um problema existencial gravíssimo no que diz respeito a fatores que retiram os sentidos das coisas mais importantes da vida: o desencontro entre o novo e o velho. Isso é puramente observável! O novo (aceitação de costumes, diferenças de raças, diferenças de personalidades, diferenças de culturas, etc.) muitas das vezes é encarado como algo a ser descartado ou evitado — e às vezes até mesmo perseguido! Já o velho — interessante esse paradoxo — deve ser descartado pelo fator “cronológico”, isto é, porque já é velho… Nós conseguimos perceber aqui que, em ambos os casos, o fator de critério de aceitação não foi a observação da qualidade, do sentido que essas coisas “novas” ou “velhas” trazem para o ser humano em questão. Isso é grave! Rejeição preconceituosa do novo traz tolhimento social e, inversamente, a rejeição impensada do velho traz modismo, uma coisa vã e sem sentido duradouro. Com efeito, Freire diz: “O velho que preserva sua validade ou que encarna uma tradição ou marca uma presença no tempo continua novo.” — Freire, 2007, p. 35.

Como pode alguém desejar ser um educador ou educadora sem estar disponível àquilo que é novo ou aquilo que é velho porém importante para as pessoas? Lembremo-nos: o que deve servir de pedra de toque na aceitação ou rejeição do novo ou do velho é o sentido que tais coisas trazem para a vida das pessoas. Não seria possível fazer com que o sentido de cada pessoa fosse usado como “chamariz” para um melhor interesse dela própria na educação? Por exemplo, que sentido existe para um adolescente em estudar História ou Sociologia?… — Isso muitas vezes leva a uma rebeldia negativa, causadora da falta de interesse e de baixa no nível de educação. Nós podemos e devemos imaginar, na verdade, como as matérias em questão devem ter um sentido na vida desses jovens. Ninguém faz nada sem um sentido. Se alguém o fizer, deve ser por um interesse material: aquilo que Paulo Freire chama de “educação bancária”.

E sobre a discriminação? Isso retira muito o sentido de vida das pessoas. Que sentido existe para um jovem em ir para a escola estudar, sabendo que ele está ali para aprender técnicas que lhe são passadas, não para melhorar o sentido de sua vida, mas para poder “vencer na vida” e continuar sustentando o sistema ao qual está implantado? Aliás, a “educação bancária” promove a discriminação, pois não gera humanos com um sentido na vida, mas simples seres que farão parte da história de lutas de classes herdada por nós desde tempos de outrora! Se os jovens, ou seja lá quem for, não verem, na educação, um sentido de lutas para poderem melhorar a sua própria existência e o bem-estar global, eles jamais empregarão a sua vitalidade de forma inteligente, de forma benéfica.

Vejam as seguintes afirmações freirianas todas-carregadas de sabedoria e de sentido; ele diz:

“Não há inteligência… que não seja também comunicação do inteligido… A tarefa coerente do educador que pensa certo é, exercendo como ser humano a irrecusável prática de inteligir, desafiar o educando com quem se comunica e a quem comunica, produzir sua compreensão do que vem sendo comunicado.” — O grifo é nosso. Freire, 2007, pp. 37, 38.

Essas afirmações parecem trazer algum sentido existencial para o ser humano na questão do estudar. Notem que não se trata de um simples passar de informações, mas uma troca de informações, uma tentativa de complementação ou de diálogo. Pelo visto, Freire visualizava a relação entre professores e estudantes muito mais como uma relação entre seres humanos amigos numa mesma missão do que uma mecânica relação de “nós falamos e vocês escutam”. Ele ainda diz: “O pensar certo por isso é dialógico e não polêmico.” (Freire, 2007, p. 38 ) Mas em que sentido “não polêmico”? Ora, como disse ele mesmo, a inteligibilidade deve se ‘fundar na dialogicidade’. Deve-se tentar um entendimento mútuo, baseado na ética universal, e não uma simples medição de opiniões na direção “sou professor e estou certo, me provem o contrário”.

Bem, é impossível sintetizar a grande obra Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, em poucos comentários direcionados unicamente a um dos capítulos da obra. O certo é que, a obra, como um todo, produz uma forma, um método, uma pedagogia baseada na liberdade de pensamento do ser humano, na liberdade dele poder descobrir um sentido para a sua existência no próprio ato de estudar. Aliás, como já dito tantas outras vezes, se não houver sentido, não há educação, não há nada.

Voltar ao Índice “Universidade”

 


8 respostas para Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire (Filosofia)

  1. Girlene disse:

    Parabéns pela clareza com que contextualizou e sintetizou tão bem esta bela interpretação, do livro Pedagogia da Autonomia.

    • Anderson Coresma disse:

      Parabéns, Marcondes… estou fascinado com a maneira de como sintetizou de maneira clara e objetiva esta grande obra deste tão igualmente grande educador Paulo Freire, de fato uma das minhas obras favoritas que traçam os anseios de uma educação para a mudança em nosso país.

  2. Anna disse:

    eu queria um resumo do capitulo 2 topico 2.8, o mais rapido possivel…

    obrigado, estou aguardando.

    • Resposta do Blog:

      Desculpe, Ana. Mas isso aqui é apenas um trabalho que foi apresentado ao meu curso de sociologia, e não um site para encomendas de resumos. Aconselho a ler o livro inteiro e fazer o seu próprio resumo. Isso é bem fácil, útil e prazeroso de se fazer. Vá por mim!

      Um abraço!

  3. Marcela disse:

    Eu gostaria de saber se não poderia me ajudar em fazer uma análise ou um resumo para melhor entendimento, capítulo 3 tópico 3.7, estou lendo o livro, mas gostaria de ver a análise bem clara desse tópico.
    Obrigada!

  4. Helio disse:

    É bom alimentar.se d Paulo Freir

  5. Helio disse:

    Queria saber o que cita na verdad primeiras palavras?

  6. Jovana m Lourenção disse:

    Muito bom me ajudou muito obrigada

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: