O Poder do Sensacionalismo

15 de abril de 2011

O crime que ficou conhecido como o Massacre de Realengo, cometido por um jovem de 24 anos, Welligton de Menezes, no Rio de Janeiro, sem dúvida foi inédito no Brasil. Os brasileiros só costumam ouvir esse tipo de notícia na parte “internacional”, dos programas jornalísticos.

Embora seja verdade que a população brasileira ficou chocada com esse crime bárbaro, o que devemos destacar, a partir de agora, não são as afirmações sensacionalistas, como é costume na mídia corporativista. Este crime deve servir de incentivo para discussões sérias sobre várias questões sociais, entre elas: o estigma pelas doenças e tratamentos mentais, o bullying, segurança nas escolas, valores sociais humanísticos, etc.

Para se ter uma ideia do poder impressionante do sensacionalismo midiático, oberve o gráfico abaixo, mostrando as estatísticas de visitas a este web site:

Estatísticas do Site Pessoal de Marcondes Lucena (mês de abril de 2011)

Conforme notamos no gráfico fornecido pelo site WordPress, este blog possui uma taxa de visitas diárias estável, com pequenas variações. No entanto, com a publicação do artigo “O massacre de Realengo e as Testemunhas de Jeová”, um dia após a tragédia, tentando explicar as incompatibilidades entre as informações deixadas na carta de despedida de Wellington e a doutrina das Testemunhas de Jeová, o site sofreu uma mudança na quantidade de acessos tal como nunca ocorrera, chegando a um auge sem precedentes de visitas  por dia. Concomitante a isto, dada a exaustão do tema pelos meios midiáticos, notamos que as estatísticas tendem a regredir aos níveis normais uns três ou quatro dias após o pico de acessos.

O artigo também recebeu muitos comentários até o momento, inclusive de algumas pessoas pertencentes ao grupo religioso das Testemunhas de Jeová, agradecendo pela imparcialidade no artigo, visto que não fizemos nenhuma associação entre o Massacre de Realengo e a cultura das Testemunhas em si. Na verdade, no artigo nós defendemos o ponto de vista de que pessoas com anormalidades mentais podem desenvolver pensamentos como os de Wellington independente do meio em que vivem. Rechaçamos a ideia de perseguição a ambientes coletivos inspirada na conduta de indivíduos específicos, usando como base a ligação de tais indivíduos a tais ambientes, exceto nos casos em que se verifica uma ligação direta e indubitável entre a conduta dos indivíduos e os ambientes por eles frequentados. Este não parece ser o caso.


O Massacre de Realengo e as Testemunhas de Jeová

8 de abril de 2011
Wellington Menezes

Wellington Menezes

O caso do massacre na escola de Realengo, no Rio de Janeiro, despertou a atenção de todo o mundo recentemente. Muitos se perguntam, naturalmente, o que motivaria uma pessoa a cometer crimes como esses e depois tirar a sua própria vida. No entanto, este pequeno artigo foi preparado simplesmente para esclarecer a algumas pessoas sobre a possibilidade da ligação deste caso com a religião das Testemunhas de Jeová.   De acordo com algumas fontes de notícia disponíveis, o jovem Wellington Menezes de Oliveira, de 24 anos, possuía ligações com as Testemunhas de Jeová por meio de sua família adotiva, e que havia frequentado a religião durante a adolescência. Esta informação parece ser verdadeira, embora não sirva, de fato, como base para a afirmação de que esta religião, em si, possua qualquer ligação com ataques como esses. Ao analisarmos a carta de Wellington (veja aqui), verificamos a ausência de qualquer menção às crenças das Testemunhas de Jeová. Além disso, o jovem não utiliza a terminologia adotada pelas Testemunhas, exceto as palavras “fornicador” e  ”adúltero”, comuns à Organização. Este ponto é de interesse, pois a terminologia organizacional é um aspecto bem peculiar nas Testemunhas de Jeová. Por exemplo, em um manuscrito do assassino noticiado dias após a tragédia, ele afirma que precisava arrumar tempo para a escola, as tarefas de casa e para ir à “igreja das Testemunhas de Jeová”. O termo igreja não é utilizado pelas Testemunhas de Jeová atualmente.

Devemos considerar, além do mais, que as crenças religiosas de Wellington destacadas na carta possuem incompatibilidades com as doutrinas atuais das Testemunhas. Veja alguns exemplos:

“Os impuros não poderão me tocar sem usar luvas” — Este regulamento não existe entre as Testemunhas de Jeová. Elas costumam manter contato normal com as pessoas do meio em que vivem, tanto fisicamente como em palavras e gestos. Exceções a isto encontramos apenas nos casos de excomunhão de membros (elas chamam de “desassociação”), onde são cortados os vínculos sociais dos fiéis com os expulsos (a condenação ao ostracismo é a pena máxima entre as Testemunhas de Jeová).

“Sepultado onde minha mãe dorme” — é somente neste ponto doutrinário que Wellington se aproxima das Testemunhas. Elas crêem que a morte é uma inexistência inconsciente semelhante a um sono profundo. A analogia feita por ele entre morte e sono pode ser fruto de um sincretismo da doutrina das Testemunhas com outras influências religiosas desconhecidas.

Testemunhas de Jeová

Testemunhas de Jeová

“Visita de um fiel seguidor de Deus em minha sepultura” — as Testemunhas de Jeová não visitam cemitérios por motivos religiosos. Elas acreditam que a morte é o fim da pessoa, incluindo a sua consciência e pensamentos, por isso consideram irrelevantes tais visitas. Neste aspecto, o jovem se aproxima doutrinariamente aos costumes fúnebres dos católicos romanos.

“Na sua vinda Jesus me desperte para a vida eterna” —  nesta passagem existe um importante ponto de afastamento entre as crenças religiosas do jovem Wellington e as doutrinas oficiais das Testemunhas de Jeová. Ele acredita numa ressurreição futura, na vinda de Jesus; as Testemunhas de Jeová atuais acreditam que esta vinda aconteceu em outubro de 1914, na época da Primeira Guerra Mundial, e que desde aquela época os que morrem vão para o céu instantaneamente, desde que façam parte de um grupo de 144.000 pessoas escolhidas. Os demais mortos, que não fazem parte desses 144.000 escolhidos, ressuscitarão no futuro, mas não durante uma vinda física ou visível de Jesus e sim num paraíso terrestre, após uma guerra de destruição promovida por Deus (Jeová), chamada de Armagedom.

Todos esses aspectos doutrinários são interessantes para se analisar com bastante cautela, pois a tentativa de associação de quaisquer grupos a crimes que chocam a sociedade pode conduzir à publicidade negativa e a perseguições indevidas aos mesmos. Além de todas essas evidências de incompatibilidades entre a carta deixada por Wellington e as crenças das Testemunhas de Jeová, os representantes oficiais da Organização negaram totalmente o envolvimento do mesmo com a Organização, por meio de carta.

Mesmo assim, a dúvida ainda continua — o que levaria um jovem a praticar tais atos?

Embora as respostas sejam incompletas ou insatisfatórias, a evidência mais plausível é a de que o jovem Wellington sofria de problemas mentais. Ao analisarmos a mesma carta, agora sob outra perspectiva, verificamos que existe ali a narração da criação de um mundo ou universo de percepção completamente separado ou desconexo, típico da esquizofrenia. Ele narra na carta a existência de dois mundos bem distintos: o mundo dos puros e o mundo dos impuros. Ele parecia não ver mais o mundo, ou a realidade, como sendo globalizante, universal, ou seja, a ideia de totalidade teria sido perdida. A luva que deveria ser usada pelos “impuros”, para tocá-lo nos preparativos para o sepultamento, servia de ligação entre os dois mundos: e é uma evidência da separação mental feita pelo jovem entre os dois mundos. A menção a um lençol branco, em que deveria ser envolto o seu corpo para sepultamento, traz um misticismo interessante, típico de pessoas que fixaram-se numa ideia e que a defendem ideologicamente, como sendo útil ou eficaz.

Também vale ressaltar que Wellington além de informar a localização desse lençol branco, posteriormente esclarece seus planos sobre o destino de sua casa em Sepetiba, outro bairro na zona oeste do Rio de Janeiro, inclusive utilizando as expressões “bom senso” e “consideração”, demonstrando a capacidade de raciocínio e planejamento. Esta é uma situação possível na esquizofrenia — a formação dos pensamentos confusos concomitante a um raciocínio intacto.

O que é esquizofrenia?

A esquizofrenia é um transtorno psíquico e é caracterizada por uma série de sintomas e comportamentos, que variam desde a  simples falta de motivação, isolamento social e pobreza de discurso a alucinações e delírios mais graves. Não existe reconhecidamente uma causa única para o desenvolvimento da esquizofrenia, embora admita-se entre muitas: o quadro psicológico, o ambiente, o histórico familiar e o uso de substâncias psicoativas.

Embora a esquizofrenia não possua uma cura definitiva atualmente, este transtorno pode ser tratado e controlado. Por isso, a melhor recomendação, tanto para nós mesmos quanto para aqueles com quem nos relacionamos, é a seguinte: ao verificarmos quaisquer alterações na formação de nossos pensamentos, ou a presença de confusão mental ou de ideias um tanto dubitáveis, procuremos ajuda especializada. Devemos trabalhar para a redução do estigma social com respeito aos problemas e tratamentos mentais, pois, uma coisa é fato — o cérebro é um órgão como qualquer um outro: ele pode ficar doente e ele pode ficar curado!

Obs.: As informações sobre as Testemunhas de Jeová disponíveis aqui são resultado de uma pesquisa de mais de 10 anos.

Este artigo tem sido atualizado, com novas informações ou frases, após a data da publicação.

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O Poder do Sensacionalismo



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